Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Um rebentar de Primavera

O mito do roubo de trabalho

Ensino

2016-05-18 às 06h00

Marlene Ferraz

Ainda menina, percebi a costumança de se apontar o dedo aos mais novos. Depois, percebi o dedo apontado a mim (e a tantos com o mesmo tamanho no corpo). Agora, dez palmos a mais na altura e no entendimento, poderia apontar o dedo, também. Mas contrario o movimento. E contemplo, com afeição, este salto para um tempo impreciso, da criança imaginadora e tão cuidada para o adulto exageradamente realista e prudente. Andam os jovens, entre um e outro, com um sopro de coragem.

Espantam-me muito as criaturas mais novas e reparo, como se um milagre racional, nas decisões que tomam por ainda acreditarem num futuro que as estatísticas tendem a acinzentar: país com uma das maiores taxas de desemprego jovem da União Europeia, país com a taxa mais elevada de doença mental e consumo de antidepressivos da Europa, país de adolescentes que mais se declaram insatisfeitos com a vida e socialmente excluídos do Mundo. Sabemos que os estudos não podem nunca ser uma representação perfeita da vida mas podem dar pistas principais sobre o estado da (imaginada) realidade. E lembremos que são os jovens um prolongamento da engrenagem familiar, que os tem aprontado com os melhores dedos possíveis.

Voltamos aos números: país no ajuntamento com os salários mais baixos da União Europeia, também com a terceira taxa mais elevada de desemprego, e continua entre os territórios com maior desigualdade e pobreza da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico. Respiremos, entretanto. Pro-fun-da-men-te.
Agora, viremos a cabeça (e o mecanismo cardial) para as particularidades iluminadas que nos fazem levantar os braços: apesar dos dedos apontados, nunca uma geração soube tanto. Muito mais que um imperador romano ou um rei escandinavo. E nunca se ouviu tanto de criativos portugueses (como se voltassem os navegadores dos Descobrimentos).

Fica a pergunta: temos sabido receber os mais novos neste redondo planetário que avança mais depressa que os nossos pés? Poderíamos até supor que acabamos por consentir as horas que passam diante de ecrãs por não sabermos criar as pontes entre a nossa cabeça e a deles.
Espantados (leia-se apavorados, também), acusamos por não lerem o suficiente, por não estudarem o suficiente, por não produzirem o suficiente. Uns incompletos, portanto.

Mais: desinteressados, acomodados, egoísticos. E a vontade de apontar o dedo (mas continuo a contrariar a costumança). Com dúvidas (sempre), aplaudo cada passo da juventude por chão tão complicado como este planeta (e, principalmente, no ponto geográfico em processo de reparação que é Portugal).
Poderia gritar: não curvem os ombros às estatísticas minuciosamente investigadas pelos homens maiores!
Mais: apontem também o dedo e reclamem políticas, arte, amor!

Na verdade, andamos confusos e tendemos a confundir os mais novos, também: avisamos dos tempos competitivos mas precisamos de jovens solidários, publicamos os gráficos da crise financeira mas pedimos empreendedores de sucesso, desejamos cidadãos participativos mas demorámos anos a formular uma lei de defesa animal, preferimos bocas contentes e nem sabemos ainda abraçar um corpo desanimado. Agostinho da Silva disse que a juventude engana - às vezes, há um simples ímpeto animal, um rebentar de Primavera, mas sem fruto.

Apontamento simples: seremos nós (maiores) a terra e dela depende a apanha nos tempos futuros. Os jovens sabem muito (e temos a linhagem academicamente mais aprontada de sempre). Nós é que (aparentemente) ainda não sabemos o que fazer com tanta substância. Eventualmente, aprendermos a ser (mais) felizes. Que nem só de títulos e medalhas se faz uma (espantosa) geração.

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