Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Telemóveis nas escolas?

Parabéns ao IPCA

Voz às Escolas

2018-06-21 às 06h00

José Augusto

OEstado francês tomou, recentemente, medidas no sentido da criação de um quadro legislativo que sustenta a proibição do uso de telemóveis nas escolas. Entre nós, o assunto suscitou um instante de debate público, logo abafado por crises mais prementes que arrastadamente prendem a atenção dos “media” e, quiçá, das audiências, ainda antes da chegada do campeonato do mundo de futebol.

Na verdade, talvez por ser importante, o assunto dificilmente merecerá a atenção de quem quer que seja, até à mediatização do próximo incidente crítico em ambiente escolar. As opiniões que vi manifestadas são maioritariamente críticas da abordagem proibitiva. O argumentário contra a limitação do uso dos telemóveis e equipamentos pessoais afins oscila entre a aceitação da inevitabilidade e o estereótipo da recusa do progresso e das inovações tecnológicas, mercê de práticas pedagógicas conservadoras e arcaicas. As opiniões a favor convocam razões de natureza pragmática, predominantemente destinadas a preservar o espaço escolar de interferências tidas como nocivas para a sua missão e pela necessidade de assegurar uma convivência humana saudável, num espaço diariamente partilhado por centenas de crianças e jovens ainda em maturação.
As escolas não precisam de proibir tudo, mas também não têm que tolerar tudo. E a lei deve garantir-lhes essa liberdade de regular autonomamente o seu espaço.

Quando fui aluno não havia telemóveis, nem computadores, e nem toda a gente tinha telefone. Havia livros e revistas de vários tipos que alguns alunos, por vezes, levavam para as escolas. Entre eles, havia livros e revistas narradas com tiras de banda desenhada ou com ilustrações fotográficas. Esses livros versavam sobre os mais diversos temas e estilos, desde inocentes histórias de aventuras, a folhetins amorosos ou, até, “revistas para adultos”. Claro que, nas escolas, estas últimas circulavam mais raramente, e sempre clandestinamente, entre os alunos. Nas salas de aula, ocasionalmente, os livros de banda desenhada podiam desviar a atenção de algum aluno mais afoito, mas a sanção era inevitável se fosse descoberto pelo professor. Havia alguns livros de banda desenhada na biblioteca da escola e podiam ser fruídos livremente, nos intervalos ou fora das aulas. Nas salas de aulas, os livros eram recursos selecionados para uso controlado e regulado como instrumento de aprendizagem.

Hoje, as fontes de informação digital oferecem um acesso infinitamente mais vasto do que as clássicas bibliotecas de edições em papel ofereciam. Então, como agora, depois de dominar a técnica de leitura, poderia suceder que crianças e jovens largados numa biblioteca, sem qualquer constrangimento ou supervisão, desenvolvessem aprendizagens e conhecimentos capazes de contribuir significativamente para a sua educação e formação, mas haveria uma forte probabilidade de isso não acontecer. Claro que a educação escolar sistematizada, infelizmente, não garante a aprendizagem de todos. Porém, até ver, garante a aprendizagem de muitos mais. Assim, não será pela simples disponibilidade permanentemente de um meio (instrumento) tecnológico de acesso à informação que as crianças e os jovens aprendem mais. E esse, será sempre um argumento pobre para legitimar o seu uso sem qualquer controlo, supervisão ou restrição, pelo menos em contexto de sala de aula, senão nos recintos escolares.

Já sabemos que o autocontrolo e a autonomia também devem ser ensinados nas escolas, mas, se assim é, deve, muito antes, ser ensinado em casa. As escolas serão sempre um espelho da sociedade e do meio cultural em que estão inseridas. Porém, as escolas devem procurar refletir o que de melhor e mais positivo exista nesse meio e ser um motor do seu desenvolvimento humano, económico e social. Assim se justifica que o ambiente escolar seja um espaço de aprendizagem regulada, procurando estimular certos comportamentos e desincentivar outros. A questão nunca será usar ou não usar novas tecnologias em ambiente escolar. A questão será, sempre, fazer as escolhas adequadas para o uso inteligente das inovações tecnológicas.

Os recursos digitais e o uso dos meios tecnológicos são apenas instrumentais para o ensino e para a aprendizagem. São apenas meios cujo uso pode, ou não, fazer sentido consoante o fim a que se destinam. Assim, sendo conveniente não ignorar o seu potencial positivo, convém não desvalorizar o seu potencial negativo. Sim, porque, nos dias de hoje, estes meios também são instrumentos poderosos de amplificação do mal. Estão presentes na maior parte dos conflitos que se despoletam nas escolas e são, também, meios poderosos de alienação individual, de promoção da ignorância travestida de conhecimento e de estímulo do fanatismo alimentado por preconceitos falaciosos. E isso não pode ser ignorado.

Os telemóveis pessoais podem estar nas salas de aulas como instrumentos de aprendizagem, mas haverá meios mais controláveis de usufruir do conhecimento digital ao serviço da educação das crianças e dos jovens do que aceitar o seu uso acrítico em ambiente escolar só porque, cada vez mais, temos dificuldade e capacidade para dizer “Não”!
E, em educação, o “não” é um recurso que devemos ter sempre em reserva.

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