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Ideias

2019-04-19 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Nunca estive em redondel, nem em bancada de onde o admirasse, tampouco sou beato de longo curso ou de recente geração. Afora isso, uma comoção muito particular me arrebata, no entanto, perante o acto religioso e a festa brava. Assinalo, para não suscitar confusões, que sei que são fenómenos de escala e natureza distinta, com um que outro elemento psicológico comum, sem em conta levar que haverá quem corra a religião como uma tourada, e quem a última institua em próximo culto.
Isto dito, choca-me que haja quem se entretenha a reclamar de presépios e comunhões pascais em fundo escolar, quem instâncias superiores inste, como toiro bravio, esperando marrada conforme, investida que varra do ensino e do espaço público as sobrevivências obscurantistas do passado, segundo o planteiam os agentes do progresso. Traduzindo e concretizando: come cada um do que gosta e, se legítimas são as opções de quem jejua por opinião, despropositado me parece lançar anátemas e exigir proibições, que outro encanto não têm que o de provar a parcialidade lustrada e o desrespeito por quanto a cultura plasmou em tradições.
Vivemos enquanto sopro, sem deuses nem aléns, esgrimem os que denigrem o facto religioso. O sacrifício do boi de lide, para gáudio de turbas sanguinárias, é bárbaro e pagão, proclamam os mesmos iluministas, quando toca a bandarilhas e estocadas. Que valide esta dupla abordagem, diga-me, quem de forma tão exemplar cruza a vida: à Razão se resume a nossa essência? Morta está em nós a fera, nulo é o instinto? Não intuímos nós, que seja por miragem, uma dimensão mística e metafísica nas nossas existências?
Não me chega a curiosidade para indagar de que modo os queixosos organizam a besta e o serafim que encerram. Tenho para mim, porém, que em matéria de génio não distaremos de fenícios, de gregos e romanos de outras eras. Então, como agora, haverá quem acredite piamente em entidades divinas, milagres e bruxarias, quem se creia possuído ou agraciado, quem infunda dor por maldade pura, e quem a eleve a cerimonial, quem a estilize em catarse colectiva.
Louvo e saúdo o cidadão de nervos de aço, o homem que mofa de deuses e que a alma reduz a um espantalho, assim como dele espero a aceitação incondicional de todos os que com ele contrastam. Variamos em composição: mais sombrios uns, mais radiosos outros, mais pragmáticos e empiristas uns, mais fantasistas e especulativos outros... Todas as combinações são possíveis e, não raro, ocorre-nos mudar de campo, porque uma experiência radical nos convulsione até às fundações.
Escrevo em plena Semana Santa – folclore para uns, mistério para outros, mistificação repudiável para não sei quantos. Martírio, morte, ressurreição – realidade, legitimamente recapitulável, ou fantasmagoria de alucinados? Facto, ou metáfora, para que organizar possamos o nosso calvário pessoal?
Pudéssemos nós arrumar o que é primitivo em sótão sem escadas. Pudesse a velatura da modernidade reformar de vez a aberração que irrompe em desafios de futebol e maratonas de verborreia mediática. Pudesse o verniz da perfeição contemporânea anular a disseminação de hardcore canibal e vampiresco de seriais vomíficos. Pudesse a explosão de cultura positiva libertar-nos da dependência de folhetins policiais sem fundo nem fim. Pudesse uma individuação brilhante evidenciar-nos diante da tribo, mais do que nos marcam os piercings, as tatuagens, o encanto pseudo-chique da unha de gel…
Não julgues, e não serás julgado, terá dito um sábio. Queria eu debater-me com as torturas da exemplaridade, mas somos tão mais rudimentares...
Espelho, espelho meu, há alguém mais irracional do que eu?

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