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Solidão socialmente sensível

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Solidão socialmente sensível

Ideias

2019-01-11 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Conhecemos um declínio da natalidade. A afirmação é banal, assim como rastreáveis são as causas da regressão demográfica. Um optimista doentio entenderá que tudo se resolve com um cabaz de medidas expeditas, com um prolongamento das licenças materno-parentais, abonos de família majorados e creches ao virar da esquina. Um pessimista de ronhas entranhadas dirá que não vamos lá, nem com cinquenta anos de joguinhos de empurra. Não sei a que escudaria pertenço; sei, no entanto, que patinamos na hora de assumir desafios de monta. Mudaríamos, se enterrássemos o bom-serás que desenrasca, mudaríamos, se desatássemos a protestar à francesa, mas isso é capaz de dar muito trabalho.
O senhor Costa, que chegou a primeiro-ministro, enche a boca com incentivos fiscais para atrair as centenas de milhar que saíram do País. Que fazem falta, que também podem singrar por cá, e procriar, já agora. A litania não dará em nada, e os que abalaram em idade de deitar crianças, fá-lo-ão por outras paragens, com garantias acrescidas, que não há cabeça ou mão que mexa que não ganhe mais no estrangeiro. Rasamos o fundo, a despeito de discursos grandiosos. A vida só parece sorrir a quem faz vida da política, ou a ela vive encostado. Safámo-nos de alguns, ocasionalmente, mas o grosso da nata vai ficando na reserva zoológica, usufruindo do habitat natural, da brandura climática, da culinária, da subserviência. O senhor Rebelo de Sousa, que chegou a presidente da república, diz que temos que sanear a política e a economia. Pois está coberto de razão. Agora, fazê-lo…
Uma sociologia de borda d’água dirá que a regressão da natalidade tem a ver com o ingresso das mulheres no universo do trabalho. Talvez haja uns estudos que atestem que o trabalho é conciliável com a maternidade, até com maternidades de repetição, e que na Escandinávia é assim ou assado, mas às avessas do que cá se passa. As diferenças são tantas que nem chego a ver as semelhanças. É claro que poderíamos eximir as mulheres ao calvário do trabalho, mas isso é de um absurdo que nem vale a pena lembrar. Claro que as entidades patronais poderiam ser incentivadas a empregar as mulheres a tempo parcial, mas cheira-me que ninguém vai nisso, a começar pelas primeiras interessadas, focadas numa carreira à homem, diria, por simplicidade comparativa.
Nem sempre sou ingénuo, e este é um dos tais casos em que me podem colar uma etiqueta infamante. Tenho para mim, porém, que estamos perante mecanismos sociais que urge que afrontemos. Falarei por intuição, mas a auto-regulação social é uma quimera. Nenhum fenómeno é imbuído de uma inteligência positiva implícita, de uma bondade construtiva. O empregador pensa no incremento do lucro pessoal, sobrevalorizando a reprodução dos capitais à distribuição da riqueza; o político pensa na perpetuação do poder, e nos cidadãos por deslumbramento eleitoralista. As pessoas, em geral, pensam no singular, tanto que a conjugalidade ressalta como um ónus, uma maçada, que se declina, ou pronto se desfaz, em favor de feitiços narcísicos.
Talvez caia no que invectivo e que de almanaque seja a minha psicossociologia. Diria, não obstante, que tal como os poderes fracassam na solução dos problemas à escala macro, também as famílias soçobram por falhas na consolidação de uma identidade absorvente. É óbvio que há segmentos em que tudo bate certo, mas o fiel da balança vem pendendo para o lado da desagregação, e assim vogam os filhos únicos, os pais sós, e assim se arrastam famílias sem consolo nem perspectivas, entaladas com problemas insanáveis de tesouraria, e o antigamente não serve de padrão.

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