Correio do Minho

Braga,

Se a Espanha tivesse invadido Portugal há 40 anos

Escrever e falar bem Português

Ensino

2015-09-27 às 06h00

Joaquim Gomes

Faz hoje exatamente 40 anos que ocorreram, em Lisboa, ataques à embaixada espanhola, que quase conduziram à guerra entre os dois países.
Tudo aconteceu depois de Espanha ter ordenado a execução de cinco opositores ao regime de Francisco Franco, acontecimento que provocou forte indignação em Portugal. Como reação a essas execuções, logo nessa madrugada de 27 de setembro de 1975, a Embaixada da Espanha em Lisboa foi incendiada e destruída. Também o Consulado da Espanha no Porto foi atacado às 20 horas do dia seguinte, tendo os assaltantes entrado no edifício, saqueado inúmeros papéis que, de seguida, incendiaram em plena rua.

As execuções em Espanha provocaram uma grande revolta popular em Portugal. Várias multidões, às quais se associaram grupos extremistas de esquerda que aqui existiam, estiveram na origem dos violentos ataques aos edifícios representativos do Governo espanhol no nosso país.
Como consequência destes ataques, o embaixador espanhol em Portugal foi chamado a Madrid e o Banco de Espanha decidiu suspender a convertibilidade do escudo.

Os espanhóis ameaçaram retaliar os interesses portugueses em Espanha, ficando os edifícios em que se encontravam os serviços oficiais do nosso país, em Madrid, fortemente protegidos pela polícia espanhola. Desses edifícios, há a destacar a Embaixada de Portugal, a delegação da TAP (onde foram destruídas vitrinas) e o Fundo de Fomento, tendo os seus funcionários recebido incessantes telefonemas injuriosos e ameaçadores. Frases como “Não a Portugal” ou “Relações com Portugal, não”, apareceram escritas junto à Embaixada Portuguesa em Madrid.

As fronteiras de Vila Verde de Ficalho e de Vila Real de Santo António foram mesmo encerradas e as restantes foram sujeitas a uma rigorosa fiscalização, onde cada carro que entrava em Espanha, oriundo de Portugal, demorava cerca de vinte minutos a ser fiscalizado, e os carros de turismo cerca de trinta minutos. As autoridades espanholas tomaram estas medidas por existirem, também, vários cartazes que se encontravam colocados, na parte portuguesa, e que os espanhóis consideravam altamente ofensivos para o seu país.

O Conselho de Ministros de Portugal, logo na tarde desse dia 27 de setembro, decidiu informar o Governo Espanhol que se responsabilizava de imediato para pagar todos os danos causados por estes ataques.

Também o ministro do Comércio Externo de Portugal, Jorge Campinos, demonstrou a sua preocupação pela situação tensa entre Portugal e Espanha, referindo, numa entrevista ao “La Nouvelle République du Centre-Oeste”, que Portugal não pode ter más relações com Espanha, uma vez que desse país vem 40% de energia, e se fosse cortado esse fornecimento de energia elétrica, provocaria cerca de um milhão de desempregados no nosso país. Lamentou ainda esta situação, pois Portugal teve que indemnizar a Espanha, e as divisas nacionais apenas durariam cerca de três semanas.

A tensão entre os dois países atingiu contornos bem preocupantes. A Espanha chegou a contactar os EUA, no sentido de apoiarem uma invasão espanhola a Portugal. Inclusive, chegou a realizar-se em Espanha um Conselho de Ministros, em que chegou a ponderar-se a hipótese de uma intervenção militar no nosso país.

Também em Braga foram vividos momentos de tensão durante este período. Um deles ocorreu no Hotel Turismo, no dia 13 de outubro de 1975, quando uma chamada anónima, efetuada à 1 hora da manhã, alertava a gerência do Hotel para a possibilidade de existir, no quarto 514, um engenho explosivo, o que obrigou à revista do Hotel, pela PSP.

No dia 31 de outubro, desse mesmo ano, ocorreu outro momento de enorme tensão, desta vez no Seminário de Braga. Alertadas as autoridades para a eventual presença de dois elementos estranhos no edifício, onde se encontravam retornados, a Polícia efetuou buscas, tendo encontrado duas pessoas escondidas debaixo de uma cama. Dois militares que estiveram envolvidos no golpe de 11 de março de 1975 foram aí encontrados: o ex. primeiro-tenente fuzileiro Benjamim Lopes de Abreu e o ex. major piloto aviador António Manuel de Sales Mira Godinho. Um deles tinha na sua posse 6 mil pesetas e ambos entraram clandestinamente em Portugal, vindos de Espanha.

O relacionamento tenso entre os dois países não atingiu contornos de ofensiva militar porque, em apenas uma semana, ocorreram três acontecimentos verdadeiramente marcantes: o primeiro foi a morte do ditador Francisco Franco, a 20 de novembro de 1975; o segundo a ação militar ocorrida em Portugal, a 25 de novembro, e a terceira, a subida ao trono do Rei Juan Carlos, a 27 de novembro. Todos eles foram determinantes para que o plano de invasão de Portugal pela Espanha fosse colocado de parte.
Neste contexto, importa refletir o que seria hoje Portugal, se a Espanha tivesse mesmo invadido o nosso país há 40 anos.

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