Correio do Minho

Braga, sábado

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S. Martinho e os bêbados de Braga

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

S. Martinho e os bêbados de Braga

Ideias

2019-11-10 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Celebra-se amanhã, dia 11 de novembro, o S. Martinho, considerado o padroeiro dos bêbados.
No ano de 383, quando o Bispo S. Martinho ia a caminho de um encontro com o Imperador Maximo, com o objetivo de lhe pedir graças, foi recebido por ele com a mais elevada estima, sentando-o junto das mais importantes personagens da sua Corte. Entretanto, começaram a encher os copos com vinho e o Imperador pediu que se entregasse a S. Martinho o copo destinado ao próprio monarca para, desta forma, ter a honra de o receber de volta das mãos do Bispo. Desde então, os bêbados passaram a adotar S. Martinho como seu padroeiro!
É evidente que os bêbados, como pessoas que gostam de consumir bebidas alcoólicas, aproveitam todos os momentos para o ingerirem. No entanto, o Dia de S. Martinho é referenciado não só pelo seu “verão”, mas também pelo dia em que “se vai à adega e se prova o vinho”.
Em Braga, como em todas as localidades, há pessoas que gostam de provar o vinho, não só neste dia, mas em muitos dias do ano. E há episódios verdadeiramente hilariantes, de bêbados em Braga! Há relatos magníficos de embriagados que percorriam as ruas de Braga, cantando ou delirando com os seus estados de alma.
Um dos relatos mais extraordinários ocorreu em 1885 (publicado em “O Commercio do Minho”, de 8 de março de 1885) e ficou associado a um ato eleitoral. Nesse dia de eleições, os manipuladores eleitorais, muito frequentes na época, fizeram de tudo para conseguirem obter mais votos para o seu candidato. Assim, quando havia eleições, o homem, chefe de família, único com permissão para votar, para ficar mais bonito, no dia do ato eleitoral, vestia o melhor fato, aquele com o qual costumava ir à missa, calçava os socos tachados, que eram limpos do lodo que se agarrava, matava “o bicho com uma malga de vinho, e sae de casa satisfeito com a lembrança de que vae fazer um figurão, ouvindo chamar pelo seu nome dentro de uma egreja, e mettendo na urna um voto importante, que lhe foi pedido por um homem de bilro na cabeça, gravata no pescoço e mãos enluvadas”.
Como na época eram poucos os que tinham direito a votar, estes “importantes cidadãos” deslocavam-se, geralmente em grupos, fazendo questão de demonstrar o seu orgulho por onde passavam. Aconteceu o mesmo com este “Zé votante” que, ao passar junto à residência de outro eleitor, o Manoel das Maquias, de imediato gritou: “- Eh, Manel! Com mil diabos! Ainda estás no quente, homem? Põe-te a pé n’um pulo e anda d’ahi para as inleições”.
Na época, a autoridade da freguesia era o regedor e, por isso, também esta fazia questão de controlar todo o processo eleitoral, proferindo constantemente palavras de incentivo ao voto: “- Vamos lá, rapazes? - Vamos lá sior regedor. Cá um homem tem um só caratle”. O número de eleitores aumentava à medida que seguiam o seu percurso, rumo à igreja, local onde se encontrava a mesa de voto. Era então que o vinho, ou a aguardente, entravam em ação.
Os homens, com o seu fato domingueiro, entravam de imediato numa taberna situada no percurso para a igreja, onde se encontrava à disposição dos eleitores uma pipa de vinho, paga por um dos candidatos: “- Eh lá! – chama o influente eleitoral enchendo malgas de vinho. – Venham cá todos os que votaram no snr. F… Vá rapazes! Isto aqui é beber até cair! E as malgas enchem-se e passam de mão em mão para serem esvasiadas nos estômagos. - Viva o snr. F, que é um homem mais generoso desta casa – grita o regedor de malga em punho!”.
Entretanto, homens apoiantes de outros partidos entravam na mesma taberna, falando alto, gritando e passando muitas vezes para o confronto físico, transformando o interior e o exterior da taberna numa autêntica confusão: “- Cal alegria, com cal diabo!” – afirmou um eleitor que acabava de chegar à mesma taberna. Claro que, estas palavras, ditas no meio do álcool, tornavam-se quentes e agitadas. Assim, um dos homens responde de imediato: “- Você não tem de que se alegrar: se vencerem a inleição foi porque roubaram os votos!”, disse ele.
Como é fácil de imaginar, esta afirmação foi mal aceite por uma parte dos eleitores, que se julgam ofendidos, tendo um deles dito: “- Que diz esse cão? - Ah seu patife! - Ah seu maroto! - Ah seu lagalhé, que o escangalho! - A elles, rapazes! - A elles, companheiros!”. A partir desse momento o ambiente foi de enorme tensão, começando os empurrões, as agressões e os ferimentos.
Assim, “começaram a ensarilhar os paus, que caem pesadamente sobre as cabeças e lombos de todos”. Como era de esperar, a enorme sarapatel que se gerou nessa taberna foi de tal ordem que a esta confusão não acabou da melhor maneira, porque a tropa teve que ser chamada ao local, prendendo “meia dúzia, outra meia dúzia vae para o hospital ou para o outro mundo, e o resto põe-se na esgueira”.
Nas freguesias de Braga, nesse ano de 1885, “Os bêbados, porém, eram aos centos, berrando pelas ruas, caio aqui, acolá me levanto… Um pagode!”.
Como diz o provérbio, o Verão de S. Martinho são três dias e mais um bocadinho...daquilo que cada um quiser!

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