Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Rússia e a insustentável posição de Portugal

Dia de sol

Ideias Políticas

2018-04-03 às 06h00

Hugo Soares

A posição dissonante de Portugal relativamente aos tradicionais países aliados no chamado caso Skripal suscita muitas interrogações e muitas dúvidas sobre as verdadeiras motivações que estarão por trás de tal posição. Ninguém ignora que a diplomacia se joga num tabuleiro de extrema complexidade, num mundo de equilíbrios e balanços muitas vezes difíceis e precários, onde o pragmatismo fala quase sempre mais alto do que qualquer convicção. Porém, e mesmo reconhecendo a diplomática virtude da prudência, neste caso do ex-espião russo e da sua filha que foram envenenados no Reino-Unido alegadamente pela mão do poder russo, tenho imensa dificuldade em perceber e mesmo em aceitar que o Governo português se mantenha em cima do muro, ostentando uma postura que é muito mais de ambiguidade do que de metódica cautela.

Como cidadão português convictamente europeísta e atlantista, incomoda-me bastante que o Estado português tenha perdido uma oportunidade de reafirmar não apenas a sua credibilidade externa mas sobretudo a sua solidariedade, em primeiro lugar junto do Reino-Unido, mas também secundando o apoio de grande parte dos países da União Europeia e da NATO, de que somos parte integrante. Por razões que ainda não descortinei totalmente, o chefe da diplomacia portuguesa, o ministro dos Negócios Estrangeiros Augusto Santos Silva, tem optado até ao momento por uma postura dúbia que é diferente de uma postura de quem tem dúvidas.

É impossível interpretar esta posição sem ter em conta o atual equilíbrio de forças da solução governativa, um governo socialista arreigadamente pró-Europa e pró-Tratado Atlântico que é apoiado por partidos declaradamente anti-Europa e anti-Tratado Atântico. Esta contradição insanável no seio da maioria de esquerda teria que se manifestar mais cedo ou mais tarde de forma ruidosa, colocando em causa toda uma tradição de alinhamento pelos valores ocidentais, humanistas e de respeito pelos direitos fundamentais dos cidadãos. Porque é sobretudo disso que se trata, de duas visões opostas do mundo e da sociedade. Penso que, em pleno século XXI, ninguém esperava que Portugal manifestasse dúvidas a este respeito mas, pelos vistos, enganei-me.
O que não quero mesmo acreditar é que esta contemporização com a Rússia, quando se impunha uma posição firme e solidária de condenação inequívoca destes atos, queira dizer algo mais. E que signifique uma qualquer troca de favores por eleições futuras e eleições passadas de importantes personalidades socialistas em organismos internacionais. Isso seria o cúmulo, uma indignidade insuportável.

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