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Rosa Mota ou Super Bock?

Como se faz uma amizade permanecer?

Rosa Mota ou Super Bock?

Ideias

2019-12-05 às 06h00

José Agostinho Pereira José Agostinho Pereira

O Pavilhão Rosa Mota virou Super Bock Arena e vale a pena pensar nisso. Digam o que disserem, são as letras gordas que marcam e, por isso, é o nome da cerveja que referencia a nova sala de eventos do Porto.
Independentemente dos cuidados de informação, ou da falta deles, que o executivo portuense teve para com a atleta olímpica no processo, e que deu origem à polémica relacionada com a cerimónia da inauguração que é conhecida, interessa refletir sobre esta tendência que alastra mundo fora de substituição dos nomes das principais infraestruturas culturais e desportivas pelos namings, o que na prática significa a passagem de nomes de personalidades de referência comunitária para nomes de marcas e negócios.

Sendo legítima, e naturalmente desejável, a máxima rentabilização económica de um espaço de espetáculos, sobretudo se esse for do domínio público, não o deveria ser a qualquer custo. E, com a atribuição do nome de uma insígnia comercial a um espaço emblemático de uma cidade, apesar de não o parecer, os custos parecem-me bem elevados e altamente discutíveis.
A tradição de dar nomes de pessoas a estes equipamentos tinha por base o reconhecimento institucional do mérito do nomeado, o que fazia incidir um foco permanente de luminosidade sobre um percurso de vida que se desejava ver replicado o mais possível dentro da comunidade.

Foi o que sucedeu com o caso concreto da atribuição do nome da Rosa Mota ao antigo Palácio de Cristal. Rosa Mota conseguiu aquilo que nenhuma mulher portuguesa tinha alcançado até 1984: a conquista de uma medalha olímpica – bronze na maratona de Los Angeles, proeza amplamente reforçada com o ouro obtido quatros anos depois, em Seul. Foi a primeira a consegui-lo, com superação individual e, neste caso, também com superação coletiva. Rosa Mota contrariou um longo histórico de ausência de vitórias das mulheres portuguesas na prova desportiva mundial maior e é bom que tenhamos isso bem presente para percebermos a importância do feito. A atribuição do seu nome a um ex-libris da cidade foi, pois, uma forma de evidenciar diária e justamente o seu exemplo de determinação, de disciplina e de trabalho.

Desligar este foco sobre esta referência, que foi o que o Porto deixou que se fizesse, significa retirar do espaço público um nome que deveria interpelar as pessoas, sobretudo quem não o conhece. E neste caso concreto, quem nos interpela agora é uma marca de cerveja e só porque existiu investimento por parte dos seus responsáveis. O raciocínio é igualmente válido para os equipamentos novos da mesma natureza, cujo batismo, como se tem visto por esse mundo fora, é decidido na base do quem dá mais e não na base de quem merece, prescindindo as instituições desta oportunidade de realce e de homenagem maior.

Se as consequências disto não nos parecem particularmente graves no imediato, até porque nós, geração atual, ainda fomos crescendo com nomes de pessoas à nossa volta, o que isto implica para o futuro pode ser particularmente grave na medida em que as principais fontes inspiradoras das gerações vindouras, vão ser marcas e não pessoas, negócios e não percursos de vida. A experiência diz-nos que a tendência é para a prática se alargar rapidamente e isso vai conduzir, lentamente, sem que nos apercebamos, à inevitável inversão de valores, mais dia menos dia. E em vez de referências maiores como Rosa Mota, José Saramago, Carlos Paredes ou Sá Carneiro, por exemplo, teremos na primeira linha de pensamento nomes como Super Bock, Altice, Meo e afins.

Com esta conduta, a sociedade está a dar força a negócios e à linguagem publicitária associada, em vez de destacar os exemplos de superação e nobreza individual que deveria inspirar todas as gerações. Está a iluminar referências de fachada, montadas em gabinetes de design e de marketing, em vez de experiência de vida, resultado de ações concretas de empenho e de mérito individual.
Compreendo o contra-argumento de que é melhor ter os nomes publicitários associados a estes espaços do que os ter a definhar ou devolutos. Ou pior, construí-los e não lhe dar serventia. É verdade. Mas como o povo português sabe, não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.
É preciso fazer escolhas e sobretudo ter presente o que elas implicam em termos de consequências sociais, não só no imediato, mas também no futuro.
Vale a pena pensar nisto!

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