Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Porquê Cinema?

Duas gerações de excelência

Escreve quem sabe

2018-06-21 às 06h00

Luís Campos

Ocinema é caracterizado por uma singular capacidade de suscitar questões a tudo com o qual se cruza. Sejam essas questões de natureza técnica, filosófica, empírica ou existencial, o processo de visualização de um filme é todo ele uma experiência intelectual e/ou sensorial capaz de nos confrontar com aquilo que melhor estabelece a singularidade da espécie humana: a possibilidade do auto-questionamento.
O cinema é a forma artística de excelência - pela incorporação que faz de várias (todas?) as outras artes - e uma das principais virtudes da história da humanidade. A complexidade da condição humana beneficia de um constante exercício de questionamento que nos permita ir resistindo à acomodação marasmática que vai caracterizando a contemporaneidade (e ameaçando uma noção de futuro colectivo).

Não é através da existência cinematográfica que o ser humano sobrevive, mas é fundamental para a existência humana que o cinema possa sobreviver. E a triste verdade é que o cinema caiu em desuso. Está em risco.
O crescimento de facilidades de acesso físico e sobretudo tecnológico - hoje qualquer ecrã de telefone permite-nos aceder a milhões de conteúdos online em poucos segundos - é inversamente proporcional ao decréscimo do hábito de consumo cinematográfico. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; já nos dizem desde sempre. A máxima é ilustrativa de um preocupante desinteresse da nossa espécie nessa condição tão específica e tão virtuosa que nos permite uma ideia de progresso e de evolução racional enquanto indivíduos e integrantes de uma sociedade - podermos questionar-nos sobre as nossas próprias condutas, os nossos actos e os valores que representamos. Agimos cada vez mais como se já soubéssemos tudo e como se não precisássemos do cinema para nada. Parece-me que poucas coisas sejam tão perigosas como a ignorância da certeza absoluta e por isso não consigo abdicar do cinema. Preciso do cinema para tentar compreender um pouco melhor o mundo que me rodeia, mas preciso ainda mais do cinema para me conseguir compreender a mim próprio e para poder continuar a questionar tudo aquilo que penso e que faço.

Felizmente nasci num período de prevalência de uma certa rotina de consumo cinematográfico e pude ir cada vez mais cultivando essa condição que traz sentido à forma como existo e como me relaciono com os outros. Essa rotina está a desaparecer. Pareço um velho do Restelo com este discurso mas sou um jovem refém de uma experiência e de um contexto demasiado bonitos para serem ignorados (ou esquecidos) de ânimo leve; recuso-me a aceitar que o cinema possa cair de vez e por isso rejubilo e enalteço qualquer iniciativa ou actividade que se proponha a colocar o cinema na ordem do dia.
O aparecimento do YMOTION, inicialmente Mostra de Cinema Jovem, mas agora promovido a Festival, foi por si só indicador de boas notícias para o panorama nacional. O propósito, desejo e ambição de se vir a afirmar Vila Nova de Famalicão enquanto capital do cinema jovem Português acarreta responsabilidades e projecta muito empenho nessa sua missão. É um sonho digno de ser vivido. Ter participado na edição de 2017 e conquistado prémios com o CARGA (uma curta-metragem que escrevi e realizei, feita por um grupo de jovens amigos) permitiu-me acompanhar com maior proximidade o trabalho que está a ser feito pela equipa organizadora e com muito agrado aceitar o repto de participação na itinerância das projecções-conversa que por eles é colocada em prática.

O acto de resistência que se traduz em levar os filmes vencedores da edição transacta às escolas do distrito e de permitir um diálogo entre autores e espectadores é cada vez mais nobre e urgente, para manter a chama do cinema viva e para estimular eventuais desejos de criação que por aí proliferem. É importante cultivar essa relação de afecto e de gosto pelo cinema entre os mais jovens, desmistificar quaisquer ilusões hierárquicas nesse processo de criação - o fazer e ver cinema estar ao alcance de todos, por todos e para todos - e desconstruir a ideia de que o cinema é irrelevante, de chato e desinteressante ou de leve e despropositado. O cinema é das coisas mais importantes que temos. Um recurso também ele ainda jovem e longe de se esgotar, quer na forma quer no conteúdo. O YMOTION, reconhecendo-o, está a fazer a sua parte. Para que o cinema subsista e consecutivamente se reinvente. Não só para os jovens (nos quais me incluo), mas para todos nós (dos quais não me excluo). Para um futuro comum. É um dever apoiar este tipo de causa.

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