Correio do Minho

Braga, sábado

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Políticos de plástico

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Ideias

2012-12-14 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

A expressão, com um inultrapassável tom e significado de censura mordaz e satírica, foi há dias bolçada na TV24 pelo agora “comentador” M.M. (é de todo conveniente não extrapolar, tirar quaisquer ilações, usar ou fazer “trocadilho”com as iniciais) que, note-se, foi e continua a ser um político, ou melhor um profissional da política.

E se diz “que há em Portugal um conjunto de «políticos de plástico», atribuindo o rótulo a António José Seguro, «exímio no slogan»” (JN, 9.11.12), não se quer nem se pode de modo nenhum contradizer ou contestar tal afirmação porque as suas anteriores vivências naturalmente lhe proporcionaram conhecimentos e experiência prática, até para hoje falar em se “fazer trabalho de casa”. O que não acontecerá com tal conjunto de políticos de plástico em que, sublinha-se, claramente porfia em não se incluir.

Sendo óbvio que por vezes nos permitimos ouvi-lo, a verdade é que nos surpreende e nos “entusiasma” toda uma linguagem viva, gestual, expressiva e larga bem como a “segurança” (!) que empresta a algumas afirmações, comentários e análises, procurando sempre perfilar-se e apresentar-se como sabedor, competente, isento (?) e bem informado. Mas o que nos surpreendeu mais, pelo insólito e inesperado, foi a qualificação que fez de muitos políticos, criticando os deputados que certamente estavam a ler jornais ou a fazer joguinhos e não cumprem a missão de ouvir os discursos, e ainda a afirmação, no mínimo curiosa, de “que há políticos que não gostam de trabalhar, de estudar e de ler relatórios”(id.).

Claro que M.M. tem um currículo e uma experiência pessoal que de todo “emprestam” uma credibilidade ao que afirmou e disse, como que “enformando” toda uma incontornável realidade, para mais sabendo-se que começou por viver a política ainda muito jovem e “encostado” à autarquia de Fafe, como então se pôde constatar.

E daí que, consequentemente, as suas afirmação, posição e “denúncia”, porque naturalmente bem enraizadas e fundamentadas, nos assustam, perturbam e nos tiram mesmo o sono, e explicamos porquê.

Na verdade, diga-se, é de todos sabido que a actual classe política está realmente mal vista, mal conceituada e a não merecer qualquer crédito ou respeito, importando mesmo recordar-se, sublinhando, que tal classe vem arrostando com as habituais, e por regra inultrapassáveis, acusações de oportunismo, de corrupção, de compadrio, de gravosa e oca inutilidade, aliás de todo incontornáveis, perfilando-se os seus elementos tão só como uns insaciáveis “comedores” de dinheiros públicos. Uma classe onde vêm vingando esconsos e particulares jogos de interesses, sujos compromissos, presenças, nomeações e actuações eivadas de um doentio partidarismo e mescladas de um balofo e perturbador facciosismo.

Mas o mais doloroso e insólito é ter-se de admitir que foi Abril quem “pariu” e fez medrar tal “gentinha”, que, ”qual erva daninha”, se espalhou e alastrou por todo o espaço português, invadindo a administração pública, central e local, e mesmo as autarquias, em regra devido a todo um alargado conjunto de “habilidosos” e de “oportunistas” que se têm vindo a “cevar” à custa da política. Servindo-se dos dinheiros públicos e dos lugares e poderes a que foram alcandorados para enriquecer e auferir depois inauditas e “curiosas” reformas, mas que entretanto, note-se, vêm estendendo os seus tentáculos, bolçando promessas, distribuindo favores, arregimentando apoios e solidificando posições e influências em ordem ao futuro.

Assemelhando-se à conhecida “junça” que vem atacando, infestando e abafando as culturas de muitos campos deste país, de igual modo tal praga da classe política tem vindo a atacar toda uma ancestral cultura e os valores de um povo. Minando o sentido da família e da responsabilidade, anulando caracteres, obnubilando mentalidades, destruindo o valor e a importãncia do trabalho, da seriedade, honestidade, sensatez e sensibilidade, e ainda “pintando” verdades com todo um escamotear das realidades.

Dissemos acima que M.M. nos assustou, e é de todo verdade.
É que, sabendo-se que o plástico não é de modo nenhum biodegradável, arriscamos-nos a ter esta “porcaria” de “políticos de plástico” por muitos e longos anos, com todo um manifesto, muito preocupante e de todo inquestionável prejuízo para todo um e qualquer desenvolvimento do país, salubridade e melhoria das vidas social, económica e política, e ainda com reflexos perversos num quadro de relevância, consciência, respeito e manutenção da própria democracia.

Na verdade como o plástico não é biodegradável, com os políticos que temos estamos efectivamente “tramados” porquanto eles já têm os seus seguidores no seio dos partidos e na própria família, até devido ao tipo sucessório e de certa continuidade com que se têm vindo a apresentar e a desenrolar o poder e a governação, como é notório no governo, nas autarquias, no parlamento e nos lugares de chefia e de direcção. E tal facto, reconheça-se, é verdadeiramente assustador tanto mais que as actuais “fábricas” (leia-se partidos) não vêm alterando nem admitindo modificações na sua linha de produção!...

E o mais grave é que não há viabilidade de uma qualquer reciclagem séria, aceitável e profícua, até porque os anos que já levamos desde Abril de 74 nos vêm revelando que os políticos são todos iguais e com manifestas afinidades, apresentando sempre os habituais defeitos e deficiências do póprio fabrico, com incidência e nefastos reflexos em termos de carácter, seriedade, competência, honestidade e responsabilidade, sendo certo que as apregoadas diferenças ou o acentuado das tonalidades e cores não o conseguem disfarçar.
Mas como é assustador saber-se da existência de “políticos de plástico”!...

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