Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Pérolas da música...

Amarelos há muitos...

Correio

2011-01-25 às 06h00

Leitor

João Bettencourt da Câmara é dos melhores pianistas do mundo. Não sou eu a anunciá-lo, são os numerosos críticos que o ouviram um pouco por todo o mundo, são as Universidades de Londres, que se bateram por tê-lo como aluno, é o pai dele, que o apresentou ao inefável mundo dos sons, o musicólogo José Manuel Bettencourt da Câmara, que sempre acreditou e que todos os dias se sente confirmado.

Sinto-me honrada por ter sido das poucas pessoas a assistir ao maravilhoso concerto que nos foi oferecido no passado dia cinco de Janeiro no Theatro Circo. Oferecido porque poucas vezes as entradas para os seus concertos custam seis euros. Oferecido porque os bracarenses não têm de se deslocar ao Porto ou a Lisboa para assistir a grandes eventos culturais. Oferecido porque João Bettencourt da Câmara oferece música, doa-a do fundo do seu coração e através de todo o seu corpo.

A sala, a nossa esplendorosa e cara sala, viu a sua grandiosidade reconhecida pelo músico que publicou imediatamente a seguir ao concerto no seu Facebook: “Parabéns Braga! Um teatro absolutamente extraordinário, com a melhor acústica que conheço e um Steinway maravilhoso! Devia ter uma programação de nível mundial!”. Devia, mas não tem. Porquê?

A culpa, contrariamente ao que acreditei e defendi durante muito tempo, não é do programador, nem do Presidente da Câmara, nem dos interesses escondidos que residem nas caves do Teatro, que fazem os possíveis para que o investimento não seja um falhanço. Mas de muitos bracarenses que desperdiçam constantemente oportunidades de elevar o seu nível cultural.

Estavam perto de cinquenta ou sessenta pessoas na sala onde cabem oitocentas e noventa e nove.
Foi um concerto comentado, o que é sempre uma experiência agradável, pela voz que conhecemos da Antena 2, António Cartaxo. Pensados para melómanos (embora a maior parte dos músicos o seja) e para o público leigo, têm o poder de interessar o ouvinte pelo que vai ouvir, ao adicionar histórias e pormenores sobre os compositores e as obras a serem executadas.

Numa sala que conheço bastante bem, foi lá que cantei em público pelas primeiras vezes (há uns vinte anos ou mais), onde fiz parte do elenco de solistas de dois musicais produzidos pelo Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, nunca antes senti tanta dificuldade em respirar como na noite de 6 de Janeiro. Nunca lá experimentei tanta tensão, tanta sensibilidade como naquela hora e meia de música (e apetece escrevê-lo em maiúsculas).

Eu fui com grandes expectativas, de tudo o que ouvi e li sobre o jovem em questão e admiro-me por todas terem sido superadas. Excedeu tudo o que eu esperava. A música entra dentro de nós, de formas que nunca ninguém conseguirá pôr em palavras. Os dedos de João entram dentro do ouvinte. Fossemos nós surdos e pudéssemos apenas ver o corpo e as expressões do instrumentista, sentiríamos mui-to do que é a música.

A primeira parte foi em tudo brilhante, tendo a genialidade sido revelada particularmente nos Estudos Sinfónicos, Op.13, de Schumann (1810-1856), mas a Sonata em Si menor, de Liszt (1811-1886), que constituiu toda a segunda parte, tocada por João Bettencourt da Câmara é uma das maiores obras de arte que existem!

Música assim mexe connosco! Ficamos tensos, o coração pára, acelera, os pulmões contraem-se, sustemos a respiração, noutros momentos a cabeça inclina-se, sorrimos, deixamo-nos embalar. Rimos, perguntamos, ouvimos uma resposta, queremos outra, ela enfim, chega. Toda a música deveria ser assim. Verdadeiros músicos são os que tocam o ouvinte desta maneira. Não é qualquer pessoa que saiba tocar um instrumento. Esta, sim, é a verdadeira arte dos sons, a inefável, a arte à qual dedico a minha vida. Ouvir concertos destes dá sentido à musicologia e prova que um musicólogo também sabe tecer elogios, contrariamente ao que muitos instrumentistas e compositores acreditam.

Ao pai me dirijo: parabéns pelo filho que criou, pela obra de arte que fez. É o pai de um ser humano destes que pode escrever tratados sobre obras de arte. Adornos e Benjamins? Não sabem nada disso. A discussão é antiga, mas perdura por não se encontrarem respostas efectivas. O maior paradigma é Mozart. Foi o pai? Foi talento natural? Foi combinação dos dois? Se não tivesse tido o pai que teve será que…? Pergunto-me como se criará um filho destes? A responsabilidade é tão grande e tantos falham, que quando se vê algo tão bem conseguido nos questionamos: como? De onde vem? É talento? É amor? É perseverança? É tudo isto ou nada disto é tudo?

Obrigada por ter criado um Grande Músico que ainda dará tanto ao mundo!
Haja sempre sensibilidade, interesse e gosto por música.
E que Braga vá ganhando aos poucos. Tanta matéria-prima! Tanta história! Já não é uma ci-dade de província. Vai ser Capital Europeia da Juventude em 2012!
João Bettencourt da Câmara gravará este ano o seu primeiro disco nos Estados Unidos da América, onde fará mais uma digressão. Quem quiser conhecer melhor o jovem pianista pode visitar o endereço: www.jbcamara.com

Helena Braga, musicóloga

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