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Privilégios docentes

Conta o Leitor

2019-07-11 às 06h00

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Montenegro

Maria Dolores é uma velha mulher que vive só numa pobre casa de aldeia serrana. E vive triste, dolorida e mal estimada pelos seus e pelos vizinhos. Os filhos, emigrados, vão telefonando, embora o seu mau feitio os afaste. Não, raro ela gaba-se de os enxotar num permanente conflito. Na verdade ela pede-as!
Passa o tempo a espreitar pelas frinchas da casa a ver o que vai e o que vem; a meter-se na vida de todos; a mentir ou a maldizer de tudo e de cada qual, num leva e traz com pessoas de lugares vizinhos ou com quem encontra e lhe dá ouvidos nos dias de feira.
No lugar já quase ninguém a “salva” , saúda ou cumprimenta pois a sua atitude coscuvilheira cai mal ao povo. Também já ninguém liga aos seus achaques das múltiplas doenças de que diz sofrer. É oportunista e manipuladora, segundo consta. Sob os olhares dos vizinhos, segue curvada sobre a vara que a auxilia a caminhar, lenta e gemente, embrulhada no traje negro, envolta no xaile e embiocada no lenço. Porém, avança lesta e diligente se julga que ninguém a observa ou se pretende “apanhar” algo na sua rede de bisbilhotice privilegiada.
Contudo, esta imagem de octogenária decrépita não foi sempre assim, não! Prova disso são as orelhas rasgadas de Maria Dolores, pelo peso das meias libras que usou largamente, quando era nova. Alta e escorreita, de arrecadas nas orelhas e cordões ao pescoço, língua afiada, provocadora, ardilosa, era um “pedaço de carne” tentador, dizem.
Maria Dolores enviuvara cedo, pelos trinta, embora já com uma ninhada de quatro filhos. Viveu o resto do tempo amparada em casa de seus pais, como se fora solteira, controlada, por isso foi aprendendo a dissimular as suas ações menos plausíveis e a viver uma duplicidade que a deprimiu. E apareceram as “doenças” com a “paixão” pelo falecido. As más línguas dizem antes que apareceu a vontade de ir aos médicos para ser apalpada. Da fama, pelo menos, não se livrou: os achaques e desmaios eram frequentes, sempre que havia gente, sobretudo homens por perto que a levassem, em braços, até ao quarto. Depois, adivinhe-se o que pensavam os sorrisos marotos que nas caras dos circunstantes revelavam os métodos de “ressurreição”, sempre que ao fim de algum tempo ela saía do quarto!

Recentemente, o volte-face na sua vida parece ter chegado! O milagre dever-se-á à circunstância de a sua prima, moradora no lugar vizinho, ter tido um acidente e se vir obrigada a recolher a um lar. Maria Dolores passou a visitar o filho da prima, um quarentão beberrão, indolente e ocioso que sem a pressão da mãe nem comia, nem trabalhava. Só bebia. Maria Dolores entendeu ser seu dever olhar pelo “rapaz” e vai que todos os dias o visitava. Primeiro ouviam-se os berros de quem não queria ser acordado do sono eterno, em que as noites se pegam aos dias; em que nada parece haver que fazer! Os campos ficaram parados, por tratar, as podas por fazer, cães e gatos desapareceram (por falta de comida ou porque se haviam transformado, eles próprios em alimento?), as galinhas deixaram de cantar e os ovos faltaram... a vida parou!
A velha mulher tentava pôr ordem no caos e pouco a pouco os berros abrandaram. Porém, o rapaz não se viu trabalhar, nem sair de casa cujas janelas mantinha as portadas cerradas, infinitamente. O povo começou a reparar no azáfama de Dolores que não passava um dia sem visitar o “moço”, demorando-se horas a fio nesta jornada. E parecia feliz, apesar do esforço simulado.
O Inverno apertou. A chuva, o frio e o vento também e o paradigma mudou. Agora é o Chico Tonto que a visita em sua casa. E o Povo, olheiro, começou a dizer que são amantes. Não se importam. Ambos parecem ter recuperado o interesse e a motivação para viver. Ambos se tornaram visíveis, importantes, subiram no ranking do estrelato local. Mas para calar as bocas do mundo, ele passou a visitá-la noite dentro, à sorrelfa, e a só sair de madrugada.
Curioso! São agora os vizinhos de Maria Dolores que espreitam pelas frestas das janelas a fim de registarem o vaivém destas almas penadas e, os bigodões-babões lá do sítio, ficam a lambuzar-se só de pensarem no que se poderá passar, entre portas, na casa de Dolores. E comentam entre si:
- Buraco velho ou buraco novo, que importa? O buraco velho é na mesma quentinho!

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