Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Os eleitores escolhem outros!

A vida não é um cliché

Ideias

2018-03-01 às 06h00

José Manuel Fernandes

Na União Europeia, vivemos em Paz, democracia e liberdade, temos a maior economia do planeta e usufruímos de um excelente Estado Social. Na realidade, nunca estivemos melhor. Então, como é que se explica o regresso dos nacionalismos e do orgulhosamente sós? Porque é que o populismo rende tantos votos?
A memória da guerra está a perder-se. Damos - erradamente - a Paz como absolutamente adquirida. Vamos perdendo valores e há até quem os inverta, valorizando mais o direito dos animais do que os das pessoas! O imediato é que importa. Não há paciência para esperar por resultados. Não valorizamos as nossas conquistas. Tudo isto é verdade, mas não constitui uma explicação suficiente.
Até agora a geração seguinte vivia melhor do que a anterior. O emprego era para a vida. Os mais jovens tinham a expectativa de que teriam melhores condições de vida e rendimentos superiores aos dos pais. Era assim! Hoje, temos uma altíssima taxa de desemprego jovem e aqueles que trabalham recebem salários muito baixos, ainda que tenham excelentes qualificações. Não admira que os jovens constituam família cada vez mais tarde e a natalidade seja cada vez mais baixa.

Por outro lado, há cada vez mais empregos a desaparecerem e trabalhadores com enormes dificuldades em adaptarem-se a novas funções. A realidade muda de forma cada vez mais rápida, mas a melhoria da qualificação das pessoas, a legislação e os procedimentos muito tardiamente acompanham essa mudança. Repare-se no paradoxo de termos altos níveis de desemprego e, em simultâneo, uma enorme dificuldade em contratar mão-de-obra qualificada nos mais diversos setores. O mercado de trabalho exige flexibilidade, mas também terá de oferecer segurança aos trabalhadores. Todos concordamos que temos de reforçar as competências e apostar na investigação e inovação, na sustentabilidade e na inclusão.
A UE tem de continuar a ser um espaço de valores, onde a dignidade humana é inatacável e inalienável. A solidariedade, a partilha e a responsabilidade têm de ser um modo de estar.
É fácil culpar a globalização, incutir o medo, defender o protecionismo e apresentar soluções nacionalistas e simplistas que vão alastrando. No entanto, só com uma ação conjunta e coordenada a nível da UE é que podemos domesticar a globalização, eliminando os seus efeitos perversos, como a distorção da concorrência e o dumping social.

Os partidos políticos moderados da UE não têm estado à altura das exigências dos desafios atuais. Na UE, há um preocupante definhamento da família socialista, como se prova, por exemplo, na Alemanha, França, Espanha, Itália e Grécia. O crescimento da extrema-direita e da extrema-esquerda pode levar à ingovernabilidade da UE. Os extremos têm a mesma mensagem radical, simplista, anti globalização, anti União Europeia. As semelhanças entre o discurso de Marine Le Pen, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins são maiores que as diferenças. No Parlamento Europeu, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português votam - em mais de 90% dos casos - da mesma forma que a extrema-direita!

Na Hungria e na Polónia, assistimos a Governos de direita que mais se assemelham à extrema-direita. Na Alemanha, o AFD (Alternativa para a Alemanha) é um partido de extrema-direita que está pela primeira vez no Parlamento. O crescimento deste partido de extrema-direita não resulta de razões económicas, até porque a Alemanha tem uma economia robusta e em pleno emprego. Foi o ódio em relação ao outro, o egoísmo, que fez crescer este partido xenófobo.
Em França, os republicanos foram engolidos pelo En Marche de Macron, em Espanha os Ciudadanos crescem nas sondagens. Neste caso, são movimentos independentes que ocupam o centro e retiram votos à esquerda e à direita.
Todos estes factos e sinais evidenciam que os partidos moderados têm muitas dificuldades em falar aos cidadãos. Se os partidos moderados não renovarem os seus protagonistas e a mensagem que transmitem, os eleitores escolhem outros!

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