Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Os capelães militares de Braga na primeira guerra mundial

A fortuna perdida

Ideias

2018-04-15 às 06h00

Joaquim Gomes

Nos últimos dias o nosso país assistiu a várias homenagens que nos recordaram a participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial, a propósito da passagem dos cem anos da célebre Batalha de La Lys.
Essa batalha ocorreu na madrugada e manhã do dia 9 de abril de 1918, nas margens da ribeira de La Lys, na Flandres Francesa, e provocou um indeterminado número de mortos (para uns 300, para outros 1341), desaparecidos (quase dois mil) e prisioneiros (entre 6 000 e 7500). Independentemente da certeza quanto aos números, o real é que as tropas portuguesas sofreram a mais pesada derrota dos últimos 340 anos, desde a batalha de Alcácer-Quibir.
Na batalha de La Lys, Braga e, na generalidade, o Minho tiveram uma participação intensa, a começar pelo general Gomes da Costa, comandante da 2.ª divisão do Corpo Expedicionário Português e ainda muitos jovens, entre os quais se encontravam figuras ligadas à Igreja bracarense.
Convém recordar que os anos da Primeira Guerra ficaram marcados no nosso país pela miséria, com destaque para o ano de 1917. Os jovens da região não tinham esperança no futuro e passavam os seus dias entre o campo e o ócio forçado. As ruas da cidade eram diariamente percorridas por um número de mendicantes e operários desempregados. A maioria deles sobrevivia com o apoio da “Sopa dos Pobres”! Um dos relatos do jornal “Echos do Minho”, do dia 27 de janeiro de 1917, é bem elucidativo deste cenário deplorável: “Há dias, um homem robusto perguntou-nos se precisávamos d’um podador. Dissemos-lhe que não e elle deixou pender a cabeça, a esconder as lagrimas, de repente, alcançando as mãos, pediu que lhe dessemos alguma coisa.”!
Assim, foi neste contexto que os jovens desta região aceitaram partir para a Guerra. Por outro lado, poucos eram os que tinham a noção clara da dura realidade de um campo de batalha, pois não houve preparação militar adequada nem sequer preparação psicológica para enfrentar um exército inimigo, em territórios distantes e perante adversários hostis.
Num ambiente de Guerra, uma das medidas das autoridades portuguesas foi proibir o Carnaval. Assim, o Governador Civil de Braga, Bento de Oliveira, impediu as “folias carnavalescas” de 1917. Constava que estava proibido “Nas ruas e logares públicos a apresentação de mascaras, trajes, danças, musicas, parodias ou quaisquer grupos carnavalescos, nem, como nos anos anteriores, qualquer tolerância para a transgressão das posturas municipaes”.
Mal chegavam a França, os portugueses desembarcavam dos paquetes ingleses que os transportavam para de seguida trocarem-se “abraços entre pessoas que não se conhecem e que se sentem amigas. (…) Toda a gente bem disposta. Para onde vae? Para o comboio. E de lá? Ignora-se. Irá para onde o mandarem…”. (1)
O relato da viagem até França era clarificador das dificuldades da altura: “– Que tal a viagem? – pergunto a um d’elles. - Optima, porque não encontramos submarinos. Mas desgraçada por causa do mau tempo. Calcule que, no meu barco, a casa de jantar ficou destruída. Toda a loiça em cacos. Toda a mobília desconjurada. - Porque vieram desembarcar aqui? - Meu caro, (…) trouxeram-nos para este porto em logar de nos levarem para outro mais a norte, lá tiveram as suas razões, as quaes, de resto, são todas as mesmas. Os submarinos, os submarinos!” (1).
Convém recordar que durante essa viagem, que durou três dias de Portugal a França, o navio cruzou-se com cerca de onze submarinos. A maioria dos soldados dormira apenas meia hora!
Devido às tensões que marcaram a religião e a política durante a Primeira República, com constantes perseguições aos elementos do Clero e ainda ao confisco de bens da Igreja, o Clero português quis associar-se ao patriotismo que invadiu a sociedade portuguesa, defensora da participação de Portugal na Primeira Guerra. No entanto, apenas a 18 de janeiro de 1917, nas vésperas da partida das tropas portuguesas para França, através do decreto n.º 2942, foi concretizada “A assistência religiosa aos militares que a desejem e que façam parte de forças em operações de guerra”.
De imediato os prelados de Braga não hesitaram em dar o seu nome para serem enviados para a Guerra, como capelães militares, tendo inclusivamente os Bispos e o Arcebispo incentivado a participação destes religiosos. O Arcebispo D. Manuel Vieira de Matos publicou no dia 26 de janeiro de 1917 uma nota, onde refere ser conhecedor “do desprendimento e generosidade dos jovens presbyteros d’esta arquidiocese que por dever tomam parte no exército expedicionário”.
A postura da Igreja bracarense mereceu um enorme reconhecimento da população de Braga e do Minho. O próprio Arcebispo de Braga constituiu, em finais de janeiro de 1917, uma comissão de angariação de subsídios para os capelães militares. No início de fevereiro desse ano, essa comissão já tinha angariado 130$000, tendo para ela contribuído, entre outros, o Dr. António Bento Martins Júnior (com 1$500); o Padre Manuel Joaquim Peixoto Braga (com 5$000); o Padre Clemente de Campos Almeida Peixoto (com 1$000) e a Juventude Católica de Real, que promoveu uma angariação de fundos, que atingiu o valor de 21$000!
A participação da Igreja na Guerra não se fez apenas de capelães militares, pois alguns Bispos também foram chamados a seguir para os campos de batalha.
Por todas as paróquias de Braga realizavam-se concorridas e emocionantes missas para pedir a Deus que os nossos soldados obtivessem vitórias militares contra os alemães!
Pelo esforço dos nossos soldados nessa Guerra, todas as iniciativas que possam ser feitas são poucas para lhes prestar a justíssima homenagem que merecem!

1) “Echos do Minho”, de 31 de janeiro de 1917

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

20 Julho 2018

Calouste Gulbenkian

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.