Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Os bluffs da política

Vamos falar de voluntariado…

Ideias

2014-05-16 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Os bluffs na política configuram-se como algo de perversamente endémico e sucedem-se com tal frequência que nos custa a admitir e a aceitar certas observações e comentários de alguns cidadãos que já não deviam surpreender-se com uma qualquer afirmação ou dito político, por mais bluff que tal se apresente.
“Um bluff chamado PS” é o título que encima um escrito de Manuel Padilha nas “Cartas do Leitor” do JN de 13.4.14, mas tal afirmação, além de muito polémica, é controversa e de todo redutora. E irreal, note-se, porque não contempla nem abarca, como era de justiça e se impunha, todos os demais partidos e forças políticas que dirigiram ou vêm gerindo o país, já que, de igual modo, não passam de meros bluffs.
Aliás escrever-se “que este Seguro não é alternativa de Governo” pois “para isso, Seguro tinha de ter seguro contra todos os riscos”, além de meramente opinativo, demagógico e esconsamente partidário, é demasiado redutor por omitir e esquecer as muitas virtudes e capacidades da personagem, cujo nome, anote-se, só por si e sob pena de contradição, apela e revela uma segurança, de certo modo até visível em toda uma fisionomia de aparente placidez e de uma calma seráfica, abadal e cenobítica.
Uma personagem de quem Ademar Costa diz, escrevendo, que “o príncipe das promessas socialistas quer rivalizar com o rei das promessas laranja” ao “usar os indigentes como bandeira eleitoral” e querer acabar com os sem abrigo (“Cartas do Leitor” - JN, 15.4.14), pondo fim a um miserabilismo de vidas quando “as dinastias que nos têm governado mostram os resultados das suas gestões pelas ruas de Portugal” (id.).
Um intento louvável e de aplaudir que será sempre de dúbia e questionável concretização, além acarretar gravosos custos para o Estado. Uma concretização duvidosa porquanto cremos que muitos dos sem abrigo só se encontram e permanecem nessa situação porque irresponsável e culposamente nela se colocaram ou para lá foram atirados pelos próprios sistema, jogos e sequelas duma sociedade condicionada pela política e afectada pela dinâmica do poder e do dinheiro .
Mas uma situação da qual muitos nem desejam sair, note-se, porque já “habituados” a uma “particular” vida em liberdade no agir e pensar, sem peias, obrigações familiares, sociais ou outras, libertos de rendas, taxas, impostos e deduções nos dinheiros que lhes chegam às mãos, e cada vez mais “adaptados” e “preparados” para todo um característico viver num desembaraço de “independência e liberdade”. Típicos desembaraços de todo um desenrascanço intemporal e de circunstância que os preenche no dia a dia e os ajuda a manterem-se vivos e a “segurar” a própria vida.
Claro que impressionam e chocam quem os vê à noite nas ruas, mormente deitados em vãos de escadas, nos espaços vazios da estrutura de prédios ou junto às suas entradas, por norma embrulhados em mantas, cobertores de cor esbatida, roupas e panos onde o roto e o buraco surgem sempre “casados” com uma imundície de “odor” inconfundível a soltar-se de “camas” feitas de jornais, papelão, placas de esferovite e tábuas de restos de obras, etc.. Sobretudo quando o frio aperta e a chuva e neve atacam.
Simplesmente não se crê que à maioria dos sem abrigo agrade a ideia/projecto de Seguro, uma ideia não de todo original que os obrigaria a regras e disciplina, e aos deveres e “chatices” de um viver em sociedade, que de certo modo querem evitar.
Mas afigura-se-nos que Seguro, com todo o seu ar plácido, culto e de atavismo social, nem estaria realmente preocupado com os habituais sem abrigo que povoam as nossas cidades, chocando-nos e impressionando-nos pelos seu número e aspecto de total desalinhamento humano e desenquadramento social e cívico, mas antes perturbado e sobretudo temeroso, aliás numa normal e preocupante antevisão, pelo futuro de toda uma classe, a dos políticos. Na realidade, continuando a vida sócio-político-partidária a desenrolar-se dentro dos usuais e perversos esquemas de quadros e vidas de certos hábitos, em irresponsabilidade, incons- ciência e desapego ao trabalho, será consequentemente muito natural que num próximo futuro já não haja lugar, “abrigo” ou acolhimento para todos os políticos que é habitual “alojar” no aparelho do Estado e “construções anexas”, sendo incontornável todo um aumento dos sem abrigo.
Os sem abrigo da política com quem Seguro de certo se preocupou e tem em mente, ele que até já “lançou” alguns nessa situação como antigos eurodeputados, por- que é óbvio que não “cai ” nem “fica” bem que ex-governantes, ex-deputados e ex-qualquer coisa da política ou partidos vão viver para debaixo da ponte ou “encaixotar-se” num canto ou esquina de uma casa, num vão de escadas ou banco dos jardins, sendo compreensível que tudo isto o perturbe e preocupe. Até porque não chegam para todos os actuais e previsíveis lugares de acessores, administradores, presidentes, etc., e não se pode estar sempre a criar fundações, serviços, administrações e empresas públicas e a operar reestruturações e remodelações que os possam acolher. Mesmo conjugando com as vagas que se vão abrindo com as mutações governamentais e políticas, como tem sido habitual rotina desde Abril, e isto face ao crescimento desbragado de tal classe.
Aliás, ao contrário de Manuel Padilha, não podemos asseverar que Seguro não possa ser alternativa a este governo (o nome até pode “ajudar”), mas já estamos de acordo quando fala e sugere uma companhia que segure o país contra todos os riscos. O que, note-se, já devia ter acontecido há muito porque os governos vão e vêm, mais os seus bluffs, e tudo continua na mesma ou pior, sendo de todo inquestionável não haver já lugar, nem tempo, para experiências, mais asneiras, mais utopias, mais despesas públicas e mais loucuras nos organismos e aparelhos do Estado, impondo-se lisura nos procedimentos e mais seriedade, honestidade e clareza na gestão dos dinheiros públicos.
Na verdade é perturbador que os media diariamente tragam relatos de casos de autarcas, funcionários públicos, elementos dos serviços, quadros dos organismos ou empresas do Estado “mergulhados” em suspeitas e sinalética de burlas, embustes, falcatruas, embolsamentos de dinheiros, aldrabices, corrupção, etc., etc.., todos for- matando e personalizando autênticos bluffs. De cidadania, de verdade e de vida!...
Aliás os bluffs têm-se sucedido ao longo do tempo e desde Abril de 1974, com todas as forças políticas para tal formatadas e a usá-los, revelando-se uns artistas e malabaristas na área da demagogia enganosa, do embuste e da mentira. E sempre com abrigo, diga-se, porquanto ao deixarem o governo ou a administração pública houve sempre cómodos, rendosos e aconchegantes lugares de acolhimento.

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