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Ideias

2019-07-26 às 06h00

José Agostinho Pereira José Agostinho Pereira

Não gosto de presentes envenenados - acho que ninguém gosta -, mas acabo de receber um de mão beijada sem possibilidade de devolução. Antes de ir de férias, o grupo de trabalho das leis laborais da Assembleia da República definiu que o novo direito à dispensa de três horas no primeiro dia de escola dos filhos, já garantido à função pública, não será estendido ao setor privado. Muito obrigado! Eu, funcionário com vínculo público, agradeço a lenha para a fogueira do preconceito enraizado contra mim, com chancela de trabalhador privilegiado e uma série de etiquetas negativas, a maioria das vezes completamente injustas. Será esta uma das mágoas maiores, eventualmente não confessada, que persiste em muito do funcionalismo público: por mais que se trabalhe, por maior que seja a dedicação e o empenho das pessoas, por mais deficientes que sejam as condições de trabalho, a imagem do funcionário público corresponde regra geral à de um parasita. Não é estranho que isso tenha efeitos motivacionais nos próprios, o contrário é que não seria normal.
Eu não quero ser conhecido pelas pontes, pelas folgas, pelas benesses de que gozo. Como qualquer profissional que se preze, desejo é ser reconhecido pelo meu profissionalismo, pela minha entrega e dedicação à atividade que exerço. É óbvio que algo vai mal neste processo que mina por dentro a reputação do funcionário público. Enquanto o mérito profissional no privado é reconhecido com prémios de produtividade e/ou com promoções de carreira simplificadas, bastando tão só que as respetivas administrações integrem pessoas inteligentes, no público, a remuneração é por tabela e tanto faz ser bom ou não valer a ponta de um chavo que vai dar tudo ao mesmo em termos remuneratórios. A progressão é através de uma coisa chamada SIADAP, que tem uma natureza penosamente burocrática e que ainda por cima prevê um sistema de quotas que está – muito longe de garantir justiça e equilíbrio.
Contudo, no meio disto tudo, o que sobressai em termos públicos é tão só o privilégio das três horas no primeiro dia aulas e um ou outro dia de folga por decreto. E é natural que assim seja! É no que dá uma administração preocupada com a sua própria sobrevivência e não com a eficiência dos serviços. Vai–se agradando com rebuçados que pouco significam e que ainda por cima causam inveja. Tenho dois filhos com boa parte de percurso escolar percorrido e nunca senti, e não senti que eles sentissem, falta da minha presença no primeiro dia de aulas para além da hora em que os deixo com os professores.
Da minha parte agradeço a oferta, mas não, obrigado! Posso devolver?

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