Correio do Minho

Braga, quarta-feira

O respeito de Marquês de Pombal pelo Arcebispo de Braga

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2018-09-02 às 06h00

Joaquim Gomes

Assinalam-se, amanhã, 260 anos da célebre tentativa de assassinato ao rei D. José. Não há certezas quanto aos autores desse ato. No entanto, Sebastião José de Carvalho e Melo, o português mais poderoso da época, resolveu incriminar a família dos Távoras, num processo que assustou a nobreza portuguesa e surpreendeu, na altura, toda a Europa.
Quando ocorreu o terramoto de 1755, que destruiu uma grande parte da cidade de Lisboa, o rei D. José ficou com tanto medo que alguma coisa lhe caísse em cima que recusou, desde então, viver em casas construídas em pedra e passou a viver numas tendas de madeira, instaladas na Ajuda, em Lisboa. Assim, quando na noite de 3 de setembro de 1758 regressava ao seu novo “paço real”, após um encontro com a sua amante, que pertencia à família dos Távoras, o monarca foi vítima de um atentado.
Após este incidente, Sebastião José de Carvalho e Melo assumiu de imediato o controlo da situação, responsabilizando a mais ilustre família nobre, a dos Távoras. O julgamento foi rápido e dramático: no dia 13 de Janeiro de 1759 foram executados vários dos seus membros, junto ao Patíbulo de Belém. Para assinalar essas mortes foi colocado um pilar, no Beco do Chão Salgado. Também como marco desse episódio, foi construída nesse local a Igreja da Memória, ou Igreja de N. S. do Livramento ou ainda Igreja de S. José. De referir, também, que é nesse local que está sepultado o próprio Marquês de Pombal.
Os anos seguintes foram marcados pelo clima de medo que se instalou em Portugal, fruto das perseguições de Marquês de Pombal ao Clero (especialmente aos Jesuítas) e aos Nobres. No entanto, na noite de 3 de dezembro de 1769 ocorreu um outro ataque a D. José, agora em Vila Viçosa. O incidente, provocado por um demente que deu duas pauladas ao rei, não foi tão grave, mas foi motivo de preocupação nacional, tendo então o Conde de Oeiras (Marquês de Pombal no ano seguinte) enviado uma carta ao arcebispo de Braga, fazendo-lhe um relato pormenorizado dos acontecimentos de Vila Viçosa. A importância desse relato transcreve-se de seguida:
“Senhor Dom Gaspar, Arcebispo Primaz. A Sua Magestade fiz presente a carta, com que Vossa Alteza me honrou em dezoito do corrente. O mesmo Senhor ouviu com tanta benignidade como estimação as expressões que Vossa Alteza lhe dirigiu sobre o assunto do horroroso desacato sucedido em Vila Viçosa. E para nele tranquilizar o ânimo de Vossa Alteza do justíssimo cuidado em que se acha, e de que a Omnipotência Divina nos livrou com especialíssima providência, manda significar a Vossa Alteza o que vou referir: No dia de Domingo, três do corrente mês, saiu El-Rei Nosso Senhor do seu palácio de Vila Viçosa para se divertir na casa da Tapada, acompanhado de toda a Sua Corte. No fim do Terreiro do Paço se acha uma porta chamada do Nó, que pela sua estreiteza não admite que por ela possa sair mais de uma carruagem ou de um cavaleiro. Apenas Sua Magestade ia saindo a cavalo pela dita porta, quando viu de traz do muro do lado esquerdo dela um homem na figura de mendigo que, com grande varapada, ou cacheira, armou, e procurou descarregar sobre a Real Cabeça do mesmo Senhor um sacrilégio golpe, que seria mortal se a superioridade e presença do espírito de Sua Magestade, em lugar de procurar desviar-se da pancada descarregada sobre a Real Cabeça, quebrando o cavalo sobre a mão direita, a não fizesse levantar sobre o lado esquerdo contra o dito malvado assassino, em tal forma, que o primeiro golpe armado contra a cabeça apenas pode ofender a mão da rédea com uma leve contusão, e a segunda pancada, que ainda intentou descarregar o mesmo assassino, já não pode ter espaço para não ofender senão o cavalo. Caindo neste tempo toda a Comitiva de Sua Magestade sobre o referido monstro, foi tão obstinada a sua ferocidade, que maltratou algumas das pessoas que estavam por perto, enquanto não foi preso, principalmente porque Sua Magestade com outra presença de espírito, que só na grandeza do seu real ânimo podia caber no meio do conflito de um tão inesperado insulto, ordenou que ninguém matasse ou ferisse o mesmo malvado assassino, mas que só o prendessem. E dada esta ordem continuou Sua Magestade sucessivamente o caminho para a Tapada, onde se divertiu até à noite, na forma do costume dos mais dias. O execrando réu, sendo, com efeito, tomado às mãos, preso e atado, foi conduzido para segura prisão, onde se acha. No meu particular beijo, muito reverentemente as Mãos de Vossa Alteza pela honra com que me favoreceu pela falta de um irmão, que Deus chamou ao Céu; e na conformidade de outro, que ainda se acha com pouco alívio na perigosa doença que padece há perto de três meses.
Em todas as ocasiões, que se me presentearem de servir a Vossa Alteza, me empregarei sempre com a mais fiel e gostosa obediência. Deus guarde a Vossa Alteza por muitos, muito felizes e muito dilatados anos. Sítio de Nossa Senhora da Ajuda, em 24 de Dezembro de 1769. De Vossa alteza, o mais reverente creado – Conde de Oeiras”.
Considerado por muitos como um dos maiores estadistas europeus, Marquês de Pombal viveu os últimos anos sob constantes acusações e ameaças.
Quando abandonou o poder, foi nomeado Frei José Pereira de Castro como relator do Tribunal que teve por missão reanalisar o célebre “processo dos Távoras”. Este, a 23 de maio de 1781, declarou a inocência dos membros da família dos Távoras, no atentado de que eram acusados.
A própria rainha D. Maria I que, só de ouvir no nome de Marquês de Pombal tinha ataques de raiva, quando subiu ao trono ignorou-o, retirou-lhe todos os seus poderes e proibiu-o de se aproximar de Lisboa, numa distância nunca inferior a 30 Km!

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.