Correio do Minho

Braga, terça-feira

O Papel da Cultura no Envelhecimento Ativo

Tancos: falta saber quase tudo

Ensino

2016-11-23 às 06h00

Maria Ermelinda M. Ribeiro Jaques

A cultura, entendida como a aliança do saber e da vida, é alicerçada no conjunto de traços comuns transmitidos de geração em geração. Constitui-se como base da identidade pessoal e social, ponte entre gerações e estratos sociais e suporte de equilíbrio da própria sociedade.

A identidade alicerça-se em capacidades e em valores, no que somos capazes de compreender do mundo e no significado que damos às nossas vidas. O ambiente cultural - identidade social e ponte entre gerações - caracteriza-se por regras, tradições, lembranças, referências do que é mais significativo para cada um de nós no dia a dia. Engloba todo um património adquirido. Todavia, essa história construída, memória de uma sociedade, tem de ser revalorizada e enriquecida por cada um. A valorização e o enriquecimento cultural será um contributo, ou até, o pré requisito, para o almejado equilíbrio social.

A cultura, em todas as suas formas, capacita o homem para mais autonomia. E, nesse sentido, o cidadão não pode restringir-se a uma educação quando jovem se pretende adaptar-se às exigências do mundo moderno e em constante transformação. Tem de evoluir em educação, cultivando-se (é essa a raiz da palavra cultura: cultivar), enriquecendo e reconstruin- do a sua cultura. O homem culto é insatisfeito na procura do conhecimento; combate a apatia espiritual/intelectual, procurando desenvolver-se pela educação.

A cultura e o conhecimento caminham de mãos dadas e são a alavanca de desenvolvimento de qualquer país, pelo que, o processo educacional (formal ou não) tem de ser continuado e estimulado em qualquer idade. A aceleração das inovações científicas e tecnológicas requer uma adaptação cada vez mais rápida e sistemática dos conhecimentos e das competências de cada indivíduo. E talvez, o progresso da investigação realizada nas modalidades de aquisição do saber e a instauração progressiva da sociedade de informação com as novas tecnologias, possam contribuir para a realização pessoal do indivíduo, se esses progressos e meios forem colocados à disposição do maior número de pessoas.

Perseguindo este ideário, a responsabilidade de transmissão da cultura e do saber (pela família, pela escola, pelo local de trabalho), veio dar lugar a uma consciencialização individual de processo autónomo do saber, capaz de permitir a aquisição e renovação constante de saberes e competências. Cada um, tem de assumir a aquisição dos saberes para agir frente aos novos desafios. Esta é, na minha perspetiva, a função da educação e formação ao longo da vida - o dever do conhecimento.

Nesta linha de pensamento, a formação visa o homem integral (bios e logos), capacitando-o fisicamente e reforçando a razão para escolhas informadas: o que fazemos de nós próprios? Assim, a inquietação do saber vai conferir mais autonomia pessoal e segurança ontológica do que a acalmia estanque da passividade.

Cultura: um impulso para a vida
Ao debruçar-me sobre o papel da cultura no envelhecimento ativo, recordei as palavras do Dr. Alexandre Kalache1“É do interesse da sociedade que a pessoa mantenha a aprendizagem e que produza, ao longo de toda a vida”. Mas, parece um pouco desconcertante, dado que “culturalmente” fomos integrando uma “bagagem” que nos orienta para determinados estereótipos: o ser humano enquanto jovem aprende, na fase adulta trabalha e na aposentação acomoda-se. O papel, quase exclusivo que socialmente se atribui nesta fase da vida (aposentação), é cuidar dos netos e apoiar os filhos.

O envelhecimento intelectual é uma das grandes inquietações das pessoas quando se dão conta de que começam a envelhecer. Porém, o nosso cérebro só se gasta se não nos servirmos dele. “No decorrer dos anos, somos incitados a utilizar novas aquisições e a perder aquelas de que não mais nos servimos”2. Daí a necessidade de exercitar, continuamente, as nossas faculdades intelectuais.
Ao longo desta reflexão, quis salientar que a vida tem sentido na nossa identidade cultural, quando conhecemos as nossas raízes, de onde viemos, quem somos e como somos. Porém, para que a humanidade possa progredir, não podemos viver das normas e ensinamentos que nos transmitiram.

Precisamos questioná-las e construir algo novo. É pelo prazer de criar, de aprender, de cultivar, de dar... que a vida tem sentido. O indivíduo comprometido com a cultura é feliz, pois a sua vida adquire um significado útil.

1Responsável pelo Programa Global de Envelhecimento e Saúde da OMS entre 1995/2007.

2LEVET M.,1998 - Viver depois dos 60 anos. Biblioteca básica de ciências e cultura. Lisboa: Instituto Piaget.

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