Correio do Minho

Braga, quinta-feira

O pai da Amália

A Escola e os Media

Ideias

2019-02-17 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes

A Amália era uma jovem muito bonita que vivia numa freguesia do distrito de Braga. Era uma jovem elegante, carinhosa, que viveu até aos 19 anos sob a atenção e os cuidados extremos da família.
O pai, António, era proprietário de muitas terras na freguesia, onde cultivava batatas, feijão, milho, centeio e vinho, produtos que davam para alimentar quase meia freguesia. Também os animais, que criava na sua propriedade, davam para os habitantes da freguesia poderem saborear carne aos domingos ou em dias festivos. Era uma pessoa respeitável e respeitadora. Dava emprego sazonal a muitos dos habitantes da freguesia. Profundo devoto, não passava uma semana que não frequentasse as celebrações religiosas, principalmente ao domingo de manhã.
A Amália, criada com todo o cuidado pela família, cedo aprendeu as lides da casa, mas também a bordar, tarefa que fazia com grande agilidade e habilidade. Ao domingo de manhã, não faltava a uma cerimónia religiosa, deslocando-se para a igreja paroquial junto com os pais.
No verão de 1881 um jovem de uma freguesia vizinha apercebeu-se da beleza da rapariga e começou a rodear a rica casa dos pais. Como não tinha conhecimentos com a família, resolveu meter conversa com uma rapariguinha de 12 anos, conhecida da família, a quem pediu que enviasse recados a Amália. Recados cobertos de paixão e de promessas de amor eterno.
Os três primeiros recados foram ignorados pela Amália, contudo, a curiosidade foi aumentando à medida que a jovem de 12 anos trazia mais mensagens de carinho e de paixão. Quando se deitava na cama, a Amália tinha dificuldades em adormecer, pois os seus pensamentos deambulavam pelo desejo crescente em conhecer o jovem misterioso. Aos poucos, aumentou um anseio ardente dentro de si, até uma tarde de setembro em que aceitou encontrar-se com o rapaz, numa rua poeirenta, coberta de videiras e com um intenso cheiro a uvas.
Demasiado envergonhada neste primeiro contacto, o rapaz prometeu-lhe logo amor e lealdade e os encontros, às escondidas, foram-se sucedendo, sem que ninguém soubesse de nada. No final de outubro, Amália foi confrontada com a ira do pai, que foi informado por uma senhora que a sua filha encontrava-se às escondidas com um rapaz de…maus costumes!
Preocupado, o pai foi de imediato tentar saber quem era o rapaz, vindo a descobrir que não tinha qualquer ocupação, nem sequer habilidade para qualquer ofício que fosse útil à comunidade. Deambulava pelas freguesias das redondezas, apoderando-se de coisas que não lhe pertencia. Quando confirmou estas informações, o pai de Amália proibiu de imediato a filha de se encontrar com o rapaz. Mas esta, quase com 20 anos, dizia ao pai que tinha idade suficiente para pensar no seu futuro e só a ela dizia respeito escolher o homem para lhe fazer companhia na sua vida!
Preocupado, António chegou a pedir ajuda ao pároco da freguesia, para que este interferisse pela Amália e a fizesse mudar de ideias relativamente ao rapaz de maus costumes por quem se tinha apaixonado. No entanto, nem o pároco conseguiu fazer a Amália mudar de ideias!
Durante um mês e meio, o pai da rapariga viveu atormentado pelo futuro que a sua filha teria, caso não abandonasse a apaixonante cegueira que mantinha. Mas a jovem, antes totalmente obediente ao pai e até ao pároco, estava agora intransigente e até arrogante: “Quem manda na minha vida sou eu”, dizia com firmeza ao pai.
O extremar de posições atingiu o seu auge quando, na segunda semana de dezembro, a Amália informou o pai que iria casar com o rapaz. E iria fazê-lo no dia 23 de dezembro, para que no dia seguinte pudesse passar a noite de Natal em família!
Ao saber desta decisão, e perante o conhecimento de cada vez mais notícias malévolas acerca do rapaz, o pai de Amália entrou numa fase de desespero, pois ninguém conseguia remover a vontade da filha em casar com um rapaz de maus costumes!
Intransigente, a rapariga foi preparando tudo para que o casamento se consumasse no dia estabelecido, enquanto o pai, desesperado, vivia dias de enorme ansiedade, alguns deles de verdadeira alienação, por não conseguir fazer com que a sua própria filha o escutasse!
Na véspera do casamento, os vizinhos deste abastado lavrador ouviram uma enorme detonação na sua casa, acorrendo de imediato, para ver o que se passava. Foi então que se avistaram com um cenário de horror e de emocionante sofrimento: depararam-se com o homem deitado no chão, a esvair-se em sangue, fruto do disparo que o próprio tinha efetuado sobre si próprio!
Junto a uma mesa estava um bilhete, no qual se encontravam as últimas palavras escritas pelo pai e dirigidas à sua filha. Nele, o pai dizia que “Ali te deixo o meu sangue para servir às tuas bodas amanhã”!

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