Correio do Minho

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O irritante

Muro de Gelo

O irritante

Ideias

2019-03-08 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Angola sofre de urticária distal, espécie de alergia a ácaro lisbonense. Congestiona-se com carrapato microscópico, e espilra como se não houvesse amanhã, até que alívio lhe chega por mala benfazeja – uns jogos de lencinhos diplomáticos, triplamente perfumados com desculpas, explicações de que foi sem querer, e promessas de que é caso para não se repetir. Num ai se esvaem asmas e eritemas. Méritos do Instituto de Medicina Tropical, descréditos da Escola Nacional de Arquitectura e Urbanismo. «Jamaica! – remói o cônsul honorário da jóia das Antilhas – mal por mal, Haiti. Isso sim, é um pardieiro».
A indignação cai bem na mulher de lupanar e melhor assenta a reclamação na coroa daquele que não mexe uma palha. Não quererá esclarecer-nos, a embaixada da melindrosa nação africana, sobre as condições de vida de milhares de periféricos luandinos? E, no que a prepotências respeita, como estarão as coisas entre o Congo e o Cunene?
Voltando à vaca fria: em que mundo próximo da perfeição os acontecimentos da favela seixalense serão matéria de Estado, objecto de queixumes, alvo de pedidos de perdão, motivo de despachos diplomáticos? Admitámos que houve excesso policial, temperado com racismo qb e xenofobia a gosto. E de que sorte de amesquinhamento releva a declaração oficiosa angolana, essa de que Portugal pediu desculpa por tabefes distribuídos sem acerto num lameiro de bairro de lata? Desculpas exigidas ou não, apresentadas ou não por livre iniciativa, ministro outrora truculento fechado em copas, confirmação que a vergonha lhe veda, desmentido a que prontamente responderia o homólogo angolano, levando a extremos a execração do governo português.
Que se entenda, ao violentado do Vale de Chícharos assistem os mesmos direitos que a peralta da Quinta da Marinha. Agirão as forças da ordem segundo este princípio? Admito que não. Admito que um que outro preconceito possa vir ao de cima. Mas ninguém escapa totalmente às garras dos preconceitos e dos juízos a priori. Assim, tem Angola algo para ensinar – aprendamo-lo. Caso contrário, amigos como dantes, e até mais ver. No limite, retractação haja que se imponha, e é aos envolvidos que ela deve ser apresentada, nunca a Estado estrangeiro, nunca por isto.
Já agora: por que tipo de alquimia é sempre a parte angolana que se abespinha? Quão mais perfeitos são eles do que nós para escaparem a puxões de orelhas? Serão feitos de massa de hóstia? Não tenho resposta, nem para eles, nem para nós. Contudo, quanto uma esquerda esclarecida não saia a terreiro com as tarjas da opressão desfraldadas, Portugal, no seu todo, está longe de ser um país que humilhe negros por sistema, estrangeiros, ou professos de outras confissões. No máximo, ofendemo-nos mutuamente, por insuficiência de cultura.
Em suma, fico com a sensação de que Angola só se exalta quando nos passa raspanetes. Eu, por mim, agradeço que Angola tire uns tempinhos para nos transmitir umas dicas de vida a dois. Faz sentido, porque ninguém está isento de erro; faz sentido, porque com um burro se aprende. O que nós não vemos, é que do lado português soprem com a mesma força para o bolo de aniversário, posto que gémeos somos, siameses, há quem diga.
A subserviência tem um limite e, neste caso, um efeito pernicioso, que é o da recorrência dos amuos. Resmunga, Angola, e não aprende. Faz perrice, e protela-se na imaturidade. Sofre com as desventuras dos nacionais nas cinturas de Lisboa, e envolve de absolvições tudo o que se passa nos arredores de Luanda. Eles lá sabem.

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