Correio do Minho

Braga, sábado

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O Estado Novo e a cultura popular (2)

A economia da longevidade e o paradoxo do empreendedorismo social

O Estado Novo e a cultura popular (2)

Escreve quem sabe

2019-11-20 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Este é o segundo artigo e visa responder à questão das relações entre o Estado Novo e a cultura popular. Já sabe o leitor que estes artigos têm ponto de partida na leitura da obra de Maria BARTHEZ, Memória de Francisco Lage, da prática à teoria, Gradiva, Braga, 2019. A questão de saber determinar como e até que ponto o Estado Novo definiu os caminhos da cultura popular, em termos de propostas conceptuais ou protocolos metodológicos de procedimento, tem de se compreender à luz dos pressupostos ideológicos do poder dominante e dos pressupostos ideológicos das forças de oposição ou de resistência ao exercício desse poder. Correndo o risco de simplificar, sabe-se que o Estado Novo tem um projecto para a sociedade portuguesa e que o vai exercer através de mecanismos institucionais de controle, numa criação de burocracia corporativa, com recurso a instâncias policiais e de censura. As forças de oposição dividem-se em dois campos, um de inspiração totalitária também, mas comunista, digamos, outro de inspiração mais social-democrata, sem adesão ideológica ao modelo dos países então ditos socialistas. O que há de comum entre o poder instituído e as forças de oposição é uma espécie de «ódio à américa» ou à liberdade concebida segundo um modelo de sociedade capitalista.

É neste quadro de tomadas de posição, com a criação de movimentos culturais ora na defesa de um nacionalismo mais integrista e personalizadamente renovador ou de outro mais internacionalista e socialmente revolucionário que devemos procurar o esclarecimento da questão supra colocada. Todas as forças em presença investem simultaneamente na defesa de valores identitários que resultam do estudo das ciências sociais e que beneficiam, ao tempo, de um caudal imenso de estudos comuns a todos os países da Europa e do mundo, podemos dizer. Neste quadro, saber o que resulta do acumulado cultural, antropológico, literário, artístico, etnográfico, etc., e o que resulta da inspiração ou criação local dos mecanismos implementados pelo Estado Novo, é um desafio investigativo. O livro que tenho estado a analisar não o faz, a meu ver, de modo adequado e esclarecido; cai na tentação fácil de considerar que aquilo que o regime apoia e mobiliza é de sua invenção. Passemos ao caso das paradas, desfiles, museus, grupos de folclore, gabinetes de estudo, feiras, exposições, etc. Por exemplo, a interpretação da parada agrícola como caso sintomático de invenção de tradições por parte do Estado Novo não me parece adequada; o conceito de parada industrial ou agrícola estava estabelecido em muitos países, alguns avançavam já para a criação de reservas étnicas ou preservação de costumes típicos em ambientes permanentes; nem mesmo acho bem que se atribua ao Estado Novo a invenção dos eventos que vão enquadrar as tradições nessas paradas ou exposições ambulantes e efémeras: o palco e as circunstâncias em que se vai fazer a representação do uso ou costume, como, por exemplo, a apresentação e desfile do boi bento, a exibição do modo de namoro, a cavalgada dos feirantes, a lavagem da roupa, a cultura do linho, etc., estavam inventados.

Classificar a «Parada» como invenção, como vai ser depois o «desfile etnográfico», ou o «cortejo de oferendas», ou a «feira das colheitas», é, em relação aos estudos que então já circulavam (a maior parte dos quais consta da biblioteca pessoal de Francisco lage, como a autora explica), uma interpretação abusiva. O controle político e cultural e ideológico dos conteúdos exibidos, o controle das gentes envolvidas, com o medo de que possam manifestar-se em sentido diferente, aí, sim, concordo que se possa e deva falar, mas não é o que a autora Maria Barthez faz. Sintomático, é por exemplo, que a autora não confronte fontes de informação que se avançavam sobre as manifestações populares, dentro do campo semântico do Estado Novo e dos seus mecanismos, como, por exemplo, as posições do Conde da Aurora que descreve os carros da Parada como «teorias»: a teoria das vessadas, a teoria do pão, as teorias dos frutos das espadeladas de todo mister do linho… (In Revista Ilustrada de Cultura literária scientífica e artística, vol II nº 10, Porto, 1929. Dizer também que estas experiências de apresentação das teorias na Parada são uma antecipação do que vai ser a «etnografia do regime» do Estado Novo depois de 1935 também não me parece correcto, dado que estas representações eram frequentes e comuns nas festas, nos teatros; a espectacularização das tradições e dos momentos rústicos regionais já andava feita na literatura, entrou para a fotografia, era uma prática comum desde o século XIX em toda a Europa; a representação de quadros de costumes estava já institucionalizada em alguns países, em museus...
(a continuar)

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