Correio do Minho

Braga, sábado

O Escutismo Católico no Alvorecer de Abril

Cinema: dos irmãos Lumière às salas quase vazias...

Escreve quem sabe

2018-04-27 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Bom dia, quem acordou neste dia há 44 anos vivia num país sem liberdade. Num país com censura. Num país sem eleições livres. Hoje, está a acordar num 24 de Abril de um país que já teve o seu 25 de Abril. Celebre. Festeja. Sorria. Tem razões para isso. Temos todos.
Martim Silva, diretor executivo, in Expresso Curto

Foi com estas palavras que Martim Silva abriu a newsletter do passado dia 24 e, por isso mesmo, recordei esse texto que, só na liberdade de Abril, pôde ser publicado e lido, porque os homens do lápis azul, o braço armado da censura repressiva, foram banidos por serem incompatíveis com a imprensa livre, (re)nascida com a Revolução dos Cravos.
Como um simples parágrafo me fez reviver tantas lembranças e me remeteu para as histórias que o meu pai e o meu chefe dos escuteiros me contavam. Involuntariamente fui levado para a minha última crónica, onde, a certa altura, manifestava a dúvida se a próxima revisão estatutária do CNE será a 9.ª ou a 10.ª.

A verdade é que a revisão dos estatutos aprovada pelo Conselho Nacional de 1962, nunca viu a luz do dia porque o lápis azul do Estado Novo, corporizado no responsável máximo da Mocidade Portuguesa, não o permitiu. De entre outras alterações profundas e significativas, o processo eleitoral do Chefe Nacional, fez tocar as campainhas do poder político da época e os «os horríficos algozes» mataram a revisão estatutária, cuja suave brisa anunciava ventos de mudança. Também aqui, como na epopeia da Camões, «Tais contra Inês os brutos matadores, / No colo de alabastro, que sustinha / As obras com que Amor matou de amores / Aquele que depois a fez Rainha,» a justiça viria a triunfar. Nos conselhos nacionais de 1970, 1971, 1972 e 1974 (2 e 3 de março) os valores plasmados nos estatutos de 1962, tal como Inês de Castro, ainda que fisicamente mortos, inspiraram reflexões profundas sobre a problemática da participação democrática e da eleição dos órgãos diretivos, mas, também, o novo papel das crianças e dos jovens com o desenvolvimento da pedagogia do projeto nas atividades e do sistema de conselhos, como também o aprofundamento do processo coeducativo e a abertura do Escutismo Católico às raparigas, estas reflexões eram feitas a partir de relatórios apresentados ao Conselho Nacional.

O momento marcante desta mudança silenciosa foi a eleição da Junta Regional de Lisboa, cujos dirigentes colocaram em prática, na Região, o que o CNE decidira para o nível nacional em 1962 e que não fora aprovado pelo poder político. Assim, as reuniões do Conselho Regional Extraordinário, de 16 de novembro de 1973 e de 6 de janeiro de 1974, colocaram em marcha o primeiro processo eleitoral do CNE. No dia 16 de abril de 1974, terminou o prazo para a apresentação de candidaturas. Duas apresentaram-se às urnas, uma terceira desistiria da corrida, e, assim, no dia 23 de junho de 1974, o dirigente José Luís Castanheira dos Santos tornou-se no primeiro Chefe Regional, eleito por sufrágio universal e direto.

O Conselho Nacional Extraordinário de 2 e 3 de março de 1974, seguindo os passos da Região de Lisboa e, em consequência das reflexões produzidas entre 1970 e princípios de 1974, preparou um processo, para a remodelação da Junta Central, análogo ao que levara à primeira eleição de uma Junta Regional, tendo sido nomeada uma comissão para acompanhar todas as deliberações dos anteriores conselhos sobre estas temáticas. Aprovou ainda uma proposta de nomeação de D. José de Lencastre, como Chefe Nacional Honorário, logo após a sua cessação nas funções de Chefe Nacional com a eleição da nova Junta Central. Finalmente, foi aprovada uma recomendação para que a assistência nacional fosse constituída por uma equipa com um Assistente Nacional Adjunto com disponibilidade para visitar as Regiões e os Agrupamentos.

Pouco tempo depois do dia 25 de Abril, o Conselho Nacional reuniu em Fátima, no dia 7 de Julho de 1974, onde o Assistente Nacional Adjunto, o Padre Ferreira da Silva, fez uma intervenção memorável intitulada Na Hora da Renovação: do Passado para o Futuro, editada pela assistência nacional, nesse mesmo ano, que veio a marcar de forma decisiva as decisões do conselho.
Atenta ao pulsar dos tempos, a Junta Central levou uma comunicação onde apresenta a sua demissão, e propõe a nomeação de uma Comissão Executiva para preparar a mudança, tantas vezes pensada, e que deverá entrar em vigor em 1975. Devendo esta comissão comprometer-se com três pontos fundamentais: 1) manter o CNE como obra da Igreja para a formação integral dos Jovens, 2) manter no CNE a prática do método escutista, nos seus valores fundamentais e 3) manter o CNE ao serviço dos Jovens.

De forma serena e tranquila, o CNE viveu esta passagem do Passado para o Futuro, nesta Hora da Renovação, porque soube ler os sinais dos tempos, transformar os problemas causados pelo poder político em desafios, que estudou, traçando linhas de atuação, foi uma década de preparação, muitas vezes sem conhecimento dos entes, mas tendo consciência das sombras que projetavam nas paredes, conseguindo, desta forma, com a Revolução dos Cravos, consolidar o Movimento Escutista e (re)afirmá-lo na nova sociedade democrática nascente. Também hoje, o CNE é chamado a renovar-se. Nos Agrupamentos temos a esperança que honraremos o pensamento que o Padre João Ferreira deixou ao Conselho Nacional de julho de 1974: Caminhemos para o futuro, por caminhos de exigências que dignificam e não por planos inclinados de cedências que envergonham.

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