Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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O da Joana

Quem fez o trabalho de casa?

Ideias

2017-04-23 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Três vivas ao Portugal - à Braga - que trabalha vinte e quatro sobre vinte e quatro, e quatro bissextos em cada quadriénio. Hip, hip, hurra!
Vem exortação jubilosa a propósito dos trabalhos de montagem de uma grua, que, por tão urgentes e inadiáveis, tiveram que ser conduzidos pelo sossego da noite. Ele foi clinques e clanques de ferragem, ele foi roncos de esforçada auto-grua nos içares da estrutura e contrapesos de sentidas toneladas, ele foi palavra forte de montadores uns para os outros - e toda a gente sabe que os montadores têm voz grossa e vocabulário funcional restrito. Sossegou, a viela, batidas as cinco da matina. O sucesso da operação foi aplaudido das janelas, por entusiastas de obra alheia, em número rivalizante com o dos devotos da procissão do Ecce Homo, rigorosa semana atrás.

Pessoas arejadas, e mais batidas do que eu, me contraporão que assim se faz por toda a parte, que os trabalhos que impliquem cortes prolongados de via são apontados para as horas de baixo fluxo automóvel… Eu até engoliria, não tivesse testemunhado, também uma semana atrás, montagem análoga pelo fresquinho da manhã na avenida Artur Soares. O mesmo estendal: camião com o material à frente; auto-grua à retaguarda; rua cortada. Até a empresa montadora era a mesma. Ora, vá-se lá saber que maiores direitos tenham os aguerridos residentes das Palhotas aos abraços de Morfeu!

Eu, que não quero o mal de ninguém, assim por bitaite, era capaz de atirar uma operação desta envergadura para um sábado à tarde. Por outra, ele é capaz de haver uma norma restritiva que condicione ou impeça a circulação de mercadorias aos sábados. Lá está: eu, honestamente não sei. Haja, que não haja, servirá a dita norma ao repouso dos motoristas, sobretudo dos têm a cargo transportes de longo curso, o que não é o caso.

Há, contudo, uma norma protectora que resguarda o descanso dos que não têm que montar gruas pela calada da noite, nem grande vontade têm, tão-pouco, que semelhante banda sonora os embale. Em boa verdade, banal cidadão que tamanho charivari fizesse dentro de portas, ultrapassadas as canónicas dez da noite, e de visita de competente autoridade livre não se veria, com identificação e auto lavrado, com coima mais do que garantida.

Os trabalhos estavam autorizados, afiançava o fardado que por lá trocava passos perdidos. Era só o que faltava que não estivessem! Mas bem que eu apostaria que o competente despachante não concilia sonos na rua do Alcaide. Olha, se calhar até mora em emblemática artéria de S. Vicente! Bah! Não será o caso, mas um cheirinho de especulação forçada, uma pitadita de ironia apimentada não deslustra uma crônica do quotidiano.

Em resumo, não vejo que argumentação pudesse ter disso aduzida para que os trabalhos da rua do Alcaide fossem desenvolvidos em hora de repouso. Se era pelos constrangimentos do trânsito, que me desculpem, mas não é muito fácil de acomodar, até porque a avenida Artur Soares escoa mais automóveis que a rua do Alcaide. Isto digo eu, sem estatísticas, apenas pelo conhecimento real de ambas as artérias. Uma vez descartada a relevância da rua no capítulo da circulação automóvel: que por outra razão se conduziram os trabalhos, noite caída, na rua do Alcaide? Por calendário ou conveniência dos operadores? Não quero pensá-lo. Avançaram os trabalhos de noite, na rua do Alcaide, e de manhã, na avenida Artur Soares: porque a contestação previsível seria maior em S. Vicente, do que na Cividade? Não quero pensá-lo.
Sei lá: a menos que quem toma as decisões se comporte como se isto fosse o da Joana?

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