Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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O Cretino

A sociedade e os comportamentos

Ideias

2015-03-22 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Correm eleições em França, e presume-se uma nova vitória da extrema-direita. Nada ficará decidido senão na segunda volta, escrutínio em que a FN poderá não consubstanciar a supremacia da ronda inicial, por força da transferência preferencial de voto entre as famílias partidárias que alternam no poder.

Pelas sondagens conhecidas, a FN está taco-a-taco com o partido de Sarkozy, suplantando por um pescoço este pólo agregador da direita. Pelo que rezam as mesmas sondagens, os socialistas franceses conhecerão um grandioso eclipse eleitoral.

Confrontados com a iminência do desastre, Hollande e Valls desdobraram-se em invectivas e toques a reunir. Hollande aventou que era necessário arrancar eleitores à FN. Valls, com tiques de Nostradamus, traçou um cenário catastrofista, temendo e prevendo que o país se venha a estilhaçar sob a batuta dos Le Pen. Confinado a argumentos mágico-religiosos, Valls decidiu-se pela excomunhão e esconjuro, e assim decretou a estigmatização da prima-dona dos frentistas.

Dias depois, em plena Assembleia Nacional francesa, olhos nos olhos, uma jovem deputada adjectivou o primeiro-ministro de cretino. Acredito que em Portugal não se conheça Marion Le Pen. A parlamentar é sobrinha da excomungada, e de verbo emparceira com Ana Drago, que a seu tempo não passou incógnita por S. Bento.

A deputada frentista limitou-se a sugerir a Valls que reservasse para o seu próprio partido os preconceitos cretinos que endereçava à FN. Mas não havia forma do adjectivo não ser percebido como um substantivo. E talvez Valls, em nome de todos os socialistas, o tenha merecido. Há anos que a FN vai fazendo caminho de crescimento.

Nas presentes eleições, a FN apresenta candidatos em 93% das circunscrições, sendo que a UMP/UDI e o PS só se propõem em 78% e 77% dos círculos eleitorais. Nas listas de cidadãos a sufrágio, na FN 26% são assalariados ou operários, 26% reformados, 14% são quadros superiores e profissões liberais. Inversa é a representação dos competidores: mais do que um terço dos candidatos são quadros e profissões liberais, menos do que 15% são assalariados.

Hollande e Valls terão reagido ao rude golpe das sondagens, ou ao golpe ainda mais doloroso da implantação da FN nos estratos populares? Se eleitores e candidatos da FN relevam duma sociologia clássica de esquerda, o que é que a esquerda francesa tem andado a fazer? E é agora que vão arrancar eleitores?

Quando a FN se chega à dianteira da implantação? Para mais num escrutínio local, em que o voto se ganha boca-a-boca, com preponderância para as relações familiares e de proximidade? Embora não haja paralelismo, e destas eleições nada de interessante se possa extrapolar para Portugal, como observador anónimo aguardo com impaciência os resultados. Para a FN o apuro será sempre bom; para o PS o desfecho será sempre mau, salvo a ocorrência de um grande milagre.

Valls teme uma vitória da FN, senão nestas, em alguma das próximas eleições. Valls quer estigmatizar Marine Le Pen, porventura fazer dela uma intocável numa sugestão de arcaísmo de casta indiano. Visto de fora, até a mim me parece uma cretinice absurda: ou a FN é uma força partidária legítima, escrutinada por leis, e como tal com toda a liberdade de acção, ou é um ovni infecto que melhor fora que sujeitássemos a interdição ou quarentena indefinida.

Porém, quanto a Lei não se pronuncie neste sentido, fica mal, sobretudo a um socialista, a sugestão guerreira de que os cidadãos não sejam efectivamente todos iguais, ou que o voto de uns seja valioso e o de outros desprezível. Talvez seja este complexo de casta que afasta uma boa parte dos cidadãos da participação política. Que os ostraciza.

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