Correio do Minho

Braga, segunda-feira

O com-abrigo

Como sonhar um negócio

Conta o Leitor

2018-08-01 às 06h00

Escritor

Autor: João Lázaro

O homem dos seus cinquenta e tais anos, cabelos grisalhos e uma barba também branca, que lhe dava um ar de alguma intelectualidade, percorria lentamente as ruas da cidade. O dia estava a acordar, o sol envergonhado espreitava por cima do monte do Sameiro. Debaixo do braço levava dobrado o seu costumeiro jornal, que pedia emprestado no café da esquina, pois gostava de estar a par do que se passava no mundo mas mais de ver as suas meninas da última página. E dizia isso rindo-se, mostrando ainda um sorriso malandro.

Desceu as escadas e foi sentar-se num banco de madeira da avenida. Recordou os velhos brancos vermelhos desse mesmo lugar e da música que outrora dava magia à sala de estar da cidade. Depois fizeram obras, mudaram tudo, colocaram lá uma fonte, bem linda e majestosa por sinal, mas falta-lhe o encanto de outros tempos. Pousou o saco de plástico onde cabiam todos os seus bens materiais e abriu o dito jornal. E ali ficou a ler…Os seus olhos mostravam as amarguras de uma vida já longa e corriam pelas linhas dos textos e fixavam as imagens. Mas correu para a última página e ali ficou a fitá-la com ar satisfeito. O seu lábio superior sorria e tremia, saudoso dos seus tempos de juventude. As memórias passavam-lhe pelos olhos a uma velocidade estonteante e ele olhava com ar perdido o tempo que tinha passado.

Esse homem já fora um bom mestre-escola, dizia-se que os seus alunos o adoravam porque as suas aulas eram vivas, contava muitas histórias e ensinava tudo por mnemónicas. Mas com o passar dos anos foi envelhecendo e dedicou-se tanto ao trabalho que esqueceu a família e o seu destino ficou traçado. Ainda tentou recuperar as pessoas que que lhe davam vida mas já era tarde. E refugiou-se na solidão. Tornou-se sombrio, fugia das pessoas e passava os dias a andar sem rumo pelos montes próximos da cidade e a ouvir o chilrear dos pássaros. Comia o que encontrava, essencialmente fruta. A sua vida tinha perdido a essência e o corpo começou a abandoná-lo também. As pernas que noutros tempos eram ágeis e fortes recusavam-se a andar e os olhos sempre tão observadores passaram a não enxergarem quase nada. E até o ritmo que sentia no peito começou a abrandar. Os dias eram intermináveis e os amigos que tinha foi-os perdendo paulatinamente. Todas as tardes adormecia no banco em frente a um restaurante, pois o cheiro a comida davam-lhe algum alento e uma falsa sensação de um bom repasto. E ali sonhava.

Num dia quente de Verão, depois da canícula que costuma estar naquele local, uma sombra aproximou-se do banco onde o homem dormitava e pediu licença para se sentar. Ele nem a olhou mas afastou o seu corpo cansado para o lado oposto e permaneceu impávido a olhar para as árvores que lhe faziam alguma sombra.
- Boa tarde! – disse uma voz ainda jovem.
- B´tarde!- exclamou o homem com ar de quem não quer conversa.
- Trago -lhe aqui um bolinho para o senhor ! - continuou aquela voz doce.

O homem olhou surpreso aquele alguém que lhe oferecia um doce. Na sua frente estava uma mulher dos seus trinta e poucos anos, com um ar muito agradável, um doce olhar e um sorriso lindo. Ele pensava que estava a sonhar, a ver a última página do seu amigo jornal. Mas não, ela era de carne e osso e estava lindamente vestida. E sorria muito. Ele esticou a mão enrugada e tocou ao de leve na mão daquela jovem para pegar o bolo e sentiu que o sol lhe entrou alma adentro. Era uma visão incrível…
-Então, não gosta do bolo? – perguntou a senhorinha – sempre com aquele sorriso capaz de rejuvenescer aquele velho.

O homem sem deixar de a fixar, completamente hipnotizado, lá conduziu o bolo até à boca e empurrou-o bem lá para dentro. O sabor era doce mas de um melaço como nunca tinha provado. Ele observava-o agora sem o mesmo sorriso. Analisava minuciosamente aquela face e tentava redesenhá-la uns anos antes. Havia ali, naquelas feições, algo que lhe fazia lembrar alguém.
- O senhor o que fazia na vida? A sua cara não me é estranha…
- Eu fui mestre-escola há tanto tempo que já nem sei…
- Pois foi…foi o meu professor…eu vi logo que o seu rosto me fazia lembrar alguém. É graças a si que também sou professora. O senhor ensinou-me a ser muito da mulher que sou. Ensinou-me a ver nas que as pequenas coisas são só pequenas pelo tamanho, e que tudo existe com um propósito. Ah e as suas aulas eram tão engraçadas, contava anedotas, brincava muito. Ainda me lembro daquela do canguru e do Luizinho: “…o canguru leva a flor na bochecha, não a leva no…porque a professora não deixa!” e riu-se muito - o senhor professor lembra-se daquela menina de tranças negras, pequenina, com olhos de azeitona, que ficava na última fila, junto à velha janela dos fundos? Era eu…
- Não me lembro…tive tantos alunos…já foi há tanto tempo…
E um silêncio de memórias abateu-se sobre aqueles dois…

Ela continuou a sorrir, recordando aqueles tempos felizes numa velha escola, na aldeia que confina com a grande cidade e daquele professor, completamente diferente, jovem e bem constituído e que chegava sempre com um sorriso e uma história nova para contar, na sua velha bicicleta prateada.
Todos os dias, bem, quase todos os dias, os dois se encontram no mesmo banco da avenida para recordarem um passado que os marcou aos dois. E ela traz sempre um bolinho e uma fruta para aquele mestre-escola que a ensinou a ver o mundo pelo seu melhor lado. E entre os dois cresceu uma amizade só comparável ao sorriso dela.

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