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O amigo da onça

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O amigo da onça

Ideias

2019-06-28 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Os EUA têm velhas questões com o Irão, e ainda mais bolorentas e persistentes com a Rússia, não obstante as mudanças de figurino. Nós, europeus, poderíamos ter sofrido de russofobia vermelhosa penetrante, mas nenhum antagonismo retumbante nos indispõe com os iranianos, com os persas, se quisermos ir mais longe. Como quer que seja, os EUA impõe-nos inimizades figadais com uns e outros, uma superficialidade das relações multilaterais e um embargo das trocas comerciais. Tudo em nome da nossa pureza civilizacional. Ora, ainda está por provar que nossos devam que ser os ódios de norte-americanos, e que do eixo Teerão-Moscovo provenham demónios e apocalipses.
Digamos que eu não me esqueço do édito de morte lançado sobre Rushdie, e melhor sorte teve o escritor, por comparação com Khashoggi, retalhado no consulado pátrio em Istambul. Digamos que eu subscrevo que o pseudo-proto comunismo não levava em grande conta uma série de liberdades individuais, muito caras ao nosso way of life, mas estarão russos e russificados de hoje nos patamares de Estaline? Digamos que eu não me esqueço do assalto à embaixada americana em Teerão, e da crise dos reféns, mas se os EUA não estão dispostos a sobreviver às suas feridas narcísicas, por que cargas de água haveremos nós de ir no enxurro? E, se uma embaixada é território inviolável, se o que se passou é contra o direito internacional, por que bondades ou atropelos ocorreu a deposição de Mossadegh, nos idos de 53?
Por quanto tempo mais anuiremos viver com inimigos por decreto de Washington? Por quanto tempo mais aceitaremos aplaudir um palhaço de rodeo? Muito se agradece a Trump, porém, a clareza aportada ao panorama internacional: sem censuras, sem pruridos de consciência, Trump é a América de todos os dias – tacanho lambão, caprichoso, fanfarrão, rufia. Para os americanos, nós, a Europa, somos uma ficção de filme dominical: existimos para abanar cabecinhas, para proporcionar um pouco de diversão, de descanso aos olhos.
Trump esteve a segundos de validar um ataque ao Irão. Os EUA já perderam uma guerra com o Irão, por Saddam entreposto. Não lhes terá bastado de escarmenta? Queremos nós partilhar de novo tais lençóis? Ficaria a Rússia de mãos atadas, perante uma avançada sobre o Irão, ou acudiria ao vizinho, porque o inimigo do meu inimigo, meu amigo é?
A horribilidade de russos e iranianos decorre de não caírem no goto de gringos, mas estou em crer que outro seja o nosso palato, pelo menos se quisermos comer pela nossa boca e debelar as nossas próprias indigestões. O Brexit é obra de Trump e de um par de palermas empinados, de modo que estamos conversados quanto à solidariedade do aliado americano.
A Europa carece de uma reinvenção. A actual foi cozida nos fornos da Guerra Fria, em que nós e soviéticos antagonizávamos por tónicas ideológicas, condicionante que se perdeu. Outra Europa moldemos, e bem pode dar-se que a façamos por antagonismo a vontades e vantagens americanas e, sabendo-o, eles não nos permitirão tal veleidade. Que o queiram ou não, nós podemos muito bem seguir o nosso caminho.
Quem manda, acha sempre que escapa impune, quer nos tire do prato, quer nele sirva o que bem entenda. As eleições autárquicas em Istambul documentam a realidade inversa: querendo, podemos não votar em encantadores de serpentes. No que aos EUA respeita, não metemos bedelho, mas podemos dar uma sacudidela os homens de mão que mantêm entre nós. Assumamos a responsabilidade da exigência, libertemo-nos do libertador. Ou será carcereiro?

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