Correio do Minho

Braga, sábado

Nunca é tarde para ser feliz!

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2018-08-18 às 06h00

Escritor

Alfabeta

Caminhava distraída enterrando seus pés na areia macia se deixando envolver pelas cores quentes de um por do sol de raios vermelho laranja de um verão atípico.
O mar ali bem perto espalhava indolente, suas ondas de prazer. Num rendilhado branco de formas inconstantes, buscava em suas companheiras de sempre, as duras e altivas rochas, as multifacetadas conchas, e a sua preferida de sempre, a suave e tranquila areia imensa, (sempre pronta a recebe-lo) o acolhimento dessa envolvência permanente. Recuava…por vezes calmo e lentamente outras vezes tumultuoso, arrastando nessa raiva, sem aviso prévio em reboliço suas fiéis companheiras, uma vez, outra, sempre…num constante vai e vem, embrulhado no viscoso sargaço, que espalhado pela areia molhada não atrapalhava suas investidas.
Sara, cansada, de um longo dia no escritório de uma grande empresa onde trabalhava como secretaria da direção, sentia esses pingos da mar salgado refrescarem sua mente, deixando-se envolver nessa imensidão de mar adentro querendo fundir-se nessa (in)finitude. O toque do telemóvel despertou-a do êxtase.
- Sim…hoje não posso reunir-me convosco, estou fora. Fica para outro dia tomarmos um cafezinho juntas.
- Novamente fugindo do encontro. Que se passa?! É sexta feira…sei que estás sozinha, sem filhos, sem marido…que te prende dentro de casa?
- Tenho um relatório para uma reunião de trabalho na segunda e tenho que o preparar. Além disso preciso arrumar um serie de coisas que tenho espalhadas pela casa e só eu sei…
- Pois…pois…só tu podes fazer isso, né? Deixa-te de desculpas e vem daí. Temos um programa espetacular que te vai fazer bem. Precisas arejar…refrescar ideias, ver novas caras, ambientes diferentes…deixares te embalar pelo mar, que tanto gostas…
- Mas Ana, para quando esse programa…tu és a que sempre nos surpreende com “os teus programas” de grupo. Sabes que sou a mais velha do grupo e com diferentes responsabi…
- Conheço teus argumentos…eu não tenho filhos nem homem pra me prender, o Raul também está só, a Dulce deixa a menina com os avós, a Júlia tem o filho em Londres e o marido na Suiça e a Sisi tem o namorado que alinha em tudo que ela quer… Bom o programa é sair hoje á noite num mini cruzeiro que vai até uma ilha espanhola, aqui perto, na Galiza, e regressar no domingo á noite. Só faltas tu…os outros já alinharam. Está tudo preparadinho. Passo ai em casa pra te buscar e…
Mas…eu não sabia… os bilhetes…
A agência é de um amigo meu, já comprei os bilhetes, o teu incluído. Contigo tem que ser assim…está tudo controlado mesmo se alguém não pudesse ir, por algum imprevisto de última hora. Sei que não tens nada a impedir-te, apenas a vontade…dessa trato eu!
Ana, quase com quarenta anos, professora de música, era do grupo a mais decidida em tudo que se relacionasse com eventos/programas, etc. Separada havia dois anos, nunca se deixou abater por estar só. Organizava tudo de forma a ocupar seu tempo, sem tempo para pensar em nada mais que não fosse o contato com a natureza e com os amigos.
Aquele grupo tinha sido criado havia já alguns anos, desde que se conheceram na faculdade. Todos em áreas distintas, e com personalidades também elas completamente dispares. A caçula do grupo, Sisi (Cecilia) com trinta e dois anos era nutricionista. Raul, divorciado, com uma filha de 15 anos, tinha o mestrado em Administração Pública mas seguiu a carreira de fotógrafo. Júlia, licenciada em relações internacionais trabalhava numa agência de viagens. Dulce, enfermeira numa clínica privada, vivia com António há alguns anos, de quem tinha uma filha de cinco anos, mas com uma relação pouco estável. Júlia era contabilista e vivia feliz mesmo com o marido a trabalhar na Suíça e o filho a estudar em Londres. Sara a mais velha, com quase cinquenta anos tinha três filhas, 25, 23 e 20 anos e um casamento pouco feliz.
Nessa noite, no barco rumo a Espanha, com todo o grupo reunido, Sara deixou-se embalar pela alegria contagiante de Ana e as conversas cruzadas de todos querendo falar ao mesmo tempo. No bar, com canecas de sangria a ajudar, sentia-se feliz, muito feliz.
A noite já ia longa naquela sala inferior do barco de turismo, misturavam-se vários idiomas num linguarejar estranho, destacando-se o ruidoso inglês.
- Um último brinde…propôs Sara. Tenho que me recolher, preciso dormir… fiquem vocês.
- Nã…nã… vamos contigo disse Sisi e António. Podes perder-te pelo caminho e nós também vamos para os nossos aposentos. A alegria imperava no grupo, o brinde coletivo…o copo de Sara produziu um estranho som…partiu, cortando um de seus dedos. Dulce chamou de imediato o barman pedindo ajuda para estancar o sangue que escorria abundantemente do dedo de Sara. Inusitadamente surge um homem com uma caixa de primeiros socorros.
- Soy Pietro, socorrista ... permiten que le haga el vendaje (sou Pietro, socorrista… me permitam que lhe faça o curativo)
Decorridos dois anos, Sara divorciou-se e foi viver para Barcelona com sua filha mais nova Lara, e Maya, filha de 12 anos de Pietro, viúvo, o homem que a fez sorrir novamente e acreditar que nunca é tarde pra ser feliz.

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