Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Mensagem na garrafa

Eu, Fausto.

Mensagem na garrafa

Voz aos Escritores

2019-05-31 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Entramos pela casa a recusar o abandono com uma missão. Quatro anos depois da ausência do teu corpo por aquelas bandas, lá foi tempo de aceitar que a casa precisava de oxigénio renovado, luz a fazer caminho sobre a escuridão, gargalhadas a ecoar e passos a correr escada abaixo, escada acima, novamente. Obras de conforto tornavam-se imperiosas e a retirada de tudo também. Houve redistribuição, doações, transições. Recuperações e viagens definitivas para o lixo. E perto do alto da Senhora do Viso houve uma caixa de garrafas antigas que acabaram na minha casa, em Braga, na falta de quem mais por lá lhes descobrisse o fundo.

Há umas semanas o Tony e a Cristina, num repasto de afectos, presentearam-nos com uma garrafa de Drumbuie. Uma bebida escocesa, descrita como licor de ervas, foi-me apresentada como licor de whiskey. Sempre gostei muito do cheiro de bebidas fortes, por contraste com o seu sabor. Estava constipada, a garganta grossa, e o cheiro abriu caminhos de oxigenação e de memórias.
- Bebe, que te vai fazer bem. Além disso é licor, é muito agradável.

Lá segui a sugestão, farta do entupimento de mel e limão sem resultado. Dei um gole cheio de confiança, afinal era licor. O que senti a seguir dispensa descrição vulcânica, apenas reitero que a minha voz, durante os dez minutos seguintes, não ficou nada a dever ao Shane MacGowen. Palavra cerajada aumenta a caminhada, pelo que me lembrei de uma garrafa que veio com outras, trazida das terras altas portuguesas. Lá fui eu buscar uma versão bem mais antiga do invólucro da mesma bebida. Já não estava consumível, tinha caramelizado imenso o sabor, mas a beleza dos momentos e das garrafas fez-me querer transformar as ditas em candeeiros. Quando livrei o vidro dos papéis colados, a minha mão descobriu uns relevos no vidro de uma das garrafas. Procurei o ângulo mais a jeito, que os olhos já não são novos, e descubri “Bonnie Prince Charles”. Sabia que ele tinha sido um dos pretendentes à coroa britânica, pela linhagem Stuart da Escócia, mas fui pesquisar a sua história à procura de pormenores. Aconselho o mesmo ao querido leitor, pois vale a pena. Aqui só me cabe dizer que, seja pela oferta da receita à família MacKinnon, seja pela afirmação política para o mundo vinda de uma empresa privada, esta história regressou à minha memória por causa das notícias recentes sobre o Joe Berardo, que entretanto recebeu umas tréguas por causa do novo (velho!) assunto: a abstenção. Vergonhosa e perigosa, sem dúvida.

E penso sobre a política nacional e como nos falta mais verticalidade e frontalidade. Do individual para o colectivo, do pessoal para o empresarial, porque as instituições são feitas por todos nós. Numa comparação superficial, ponho na mesa o caso de Boris Johnson, que terá de se defender em tribunal por má conduta e declarações falsas, durante a campanha sobre o Brexit, sujeito a uma pena de prisão perpétua. E por cá?

Entretanto, e como sempre nos entretantos o tempo passa, entre veloz e fugidio, a vida acontece. Mais um aniversário se cumpriu. Uma marca, um registo, um número.
Este momento tem registo externo, é um facto do domínio público e em qualquer lado, até para marcar uma consulta, nos perguntam a data de nascimento. Ao mesmo tempo é algo privado, íntimo. E nem sempre os dois lados estão em sintonia, pelo que o que nos vai por dentro não é exatamente o que celebramos por fora. Às vezes o corpo acusa algo que o espírito recusa e outras o inverso. E o inverso torna-se direito por excesso de frequência, até estranharmos quando o vento corre de feição.

No meio de uma turbulenta serenidade, vou ali escrever uma mensagem numa garrafa. Pode ser que, ainda que sem lâmpada, possa servir como iluminação. Não para um náufrago qualquer, mas para um eu distante, ainda por vir ou por acontecer. Para me lembrar que um dia me senti assim, com vontade de verticalidade e de vertigem, com vento de sul a rondear o rosto.
Quarenta e dois anos são isto. Isto ou uma forma inequívoca de dizer: estou viva.

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