Correio do Minho

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Meia bola e força

Escrever e falar bem Português

Meia bola e força

Ideias

2018-06-16 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Com 68.555€ de indemnização, quantas camisolas oficiais da selecção compraria Paulo Pedroso, para distribuir por órfãos e desvalidos à guarda do Estado ou de IPSS permeáveis? Assim dito, eu sei, que soa a sarcasmo, embora nem eu saiba quem visarei. Em todo o caso, é a justiça portuguesa que escreve uma página ignóbil.
Admitamos que o senhor Pedroso nada tinha a ver com os factos caluniosos que lhe eram imputados: pois não é de bradar aos céus, a credulidade das instâncias judiciárias, posto que encafuaram e achincalharam um inocente, que poderia ser eu, ou o meu estimado leitor?

Admitamos que as denúncias respeitavam a acontecimentos realmente ocorridos, que expressavam um grito de alma, em desespero de causa, no sentido de que uma dignidade pessoal fosse restaurada, a dignidade dos abusados: pois não é o desfecho, agora sancionado pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, uma perversão dessa quitação tão procurada pelas vítimas?
Eu nunca compreendi a dinâmica do affair «Casa Pia». Dou de barato que haja pedofilia, em geral, que esta parafilia possa surgir com mais probabilidade em grandes cidades, e que a população infantil institucionalizada possa ser um alvo apetecível, e que no caso em apreço, em consequência, pudesse haver fogo para os novelos de fumo que saía da chaminé. Ora, se a coisa estava bem montada e se, pelo natural curso dos eventos, se repetiria, assim eu me pergunto: e por que é que nunca se organizou uma cilada, como essas que a brigada de combate ao tráfico de drogas organiza? A PJ sabe fazê-lo! Os tribunais costumam validar escutas e manobras afins! E, ainda que uns fossem caços e não outros, digamos, porque não estivessem activos nesse fatídico dia, o caso acabaria por ficar melhor montado, e reforçada a credibilidade nuclear dos testemunhos.
Fica em pé, porventura, uma conclusão inquietante: o caso foi tratado à trouxe-mouxe, para que resultasse em nada, ou para que resultasse no menos possível. Podemos indignar-nos, mas o alvo para o qual queiramos disparar é muito difuso.

Não faltam alvos, no entanto, assim nós queiramos fazer valer direitos de cidadania. Dados estatísticos, vindos a lume a semana passada, revelavam um acréscimo de 3000 mortos, por grosso, nos primeiros 5 meses deste ano, em comparação com período homólogo de 2017. Durante quantas semanas fomos bombardeados com o sarampo ao almoço e ao jantar? Quantas pessoas faleceram, mesmo, por causa do sarampelo?
Despejam-nos uma estatística e o assunto é dado como tratado? Que foi das gripes, dizem. Acaso as gripes deste ano foram particularmente virulentas? Não me parece. Será da deterioração dos cuidados de saúde?
Das condições de vida? Será um malfadado efeito diferido da troika?

Ai se fosse com o Passos Coelho. Eu sei que os hospitais têm andado na berlinda, que o ministro se tem mostrado nódoa que nenhuma barrela remove, mas as discussões giram em torno de mais médicos ou menos enfermeiros, em suma, questões de manga-de-alpaca. E eu assim fico: serei só eu que estranho a falta de tratamento jornalístico, logo de seiscentos mortos a mais por mês? Não parece uma variação relevante?
Aceite, o meu estimado leitor, que lhe leve cozinha internacional à prova: como estaremos, ao presente, com a Síria? Já reparou que o sanguinário do Assad saiu do alinhamento noticiário? Ter-se-á redimido, abdicado e ingressado num mosteiro? Como estamos nós do conflito israelo-palestiniano? Como vai a contabilidade: quantos bons judeus foram mortos por terroristas fanáticos nos últimos meses? E a conta contrária? Quem são os maus da fita, mesmo?

Tudo parece dispensável e caricatural. Somos um rebanho de centenas de ovelhas, que três cachorros expeditos conduzem de redil em redil, dos pastos para a ordenha, para a tosquia, quando não para o matadouro. Querem-nos de orelhas de burro e de miolos de formiga; querem-nos de boca aberta e, na circunstância, de camisolinha da selecção, mas das contrafeitas, compradas na feira ao moreno de voz cantada, visto que, a centeno e meio de euros a peça, só mesmo para peitinhos mimosos da alta-roda. Que me perdoe, aquele senhor muito prestimoso da federação, mas eu, por falta de notas anafadas, vou torcer pelo Irão, em segredo, para evitar retaliações americanas: sabe-se lá se não me encerram a conta FB e o Gmail!
Vivemos ao calhas, a ver se pega, a ver se dá. Premeia-se principescamente a anuência servil, a imbecilidade, o absurdo, que chegamos a validar por paradoxo. Diabolizamos, quem querem que diabolizemos, e abrimos alas aos chuchus do momento; não chegamos a formular opinião sobre assuntos que nunca são trazidos à luz do dia ou, se o são, apenas por efémera tangência. Discutimos sem fim o acessório, e passamos ao lado do essencial. Quando nos cansaremos de não-notícias, de folhetins, de pseudo factos?

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