Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Macron - Micron

Muro de Gelo

Macron - Micron

Escreve quem sabe

2018-12-09 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Macron é uma nulidade, não de hoje, dos tempos já de ministro da economia, tendo sido um dos protagonistas do naufrágio de Hollande. Sim, dou fé que apouco quem longe chegou na hierarquia social, e em país dado por civilizado. Mas pronto, culpas reparto com a fada modéstia, potência esquiva que não me assiste.
Macron é uma nulidade, como o foi Hollande, como o foi Sarkozy, como o foi… Pois! Dizem, os franceses, que vivem entalados vai para trinta anos, a passar. Acho que somos parecidos, nós e os franceses – adoramos dizer mal de quem elegemos. Macron foi eleito, graças aos faustos de campanha endinheirada, graças a um aperto judicial a Fillon (por dinheiros mal explicados, assunto que saiu da agenda, logo que o putativo candidato dos Les Républicans saltou de cena), graças à imbecilidade do partido socialista francês, que apostou em candidatura abertamente perdedora, a de Hamon, quando poderia ter negociado com Mélenchon – e o rabujento da France Insoumise teria passado à segunda volta, ao invés da Le Pen, ou ao invés do avençado da finança, Macron de seu nome.

Macron é uma nulidade. Macron é de facto um Micron, trocadilho que os franceses teriam apreciado, escrevesse eu lá. Mas escrevo cá, e começo por referir que não tenho como comparar as cargas fiscais, isto se entendermos que as manifestações, os desacatos, o estado de pré-insurreição, se ficam a dever a um aumento dos impostos sobre a energia e os combustíveis, em particular, e a uma opressão fiscal desmesurada, em geral. Como digo, gostava de ter a possibilidade de comparar a de lá com a de cá, para descartar reflexão insidiosa: não partilharemos nós o mesmo calvário? E, se o partilhamos, por que espécie de resignação nos ajustamos de mansinho? Será uma adaptação darwiniana?

Com tanto para remediar no quintal lá de casa, não é que o Micron não decide salvar o planeta? Ah! Isto é que é homem! Ele quer resgatar o planeta, cortando no CO2, efeito para o qual nada de melhor lhe surge que uma taxazinha sobre os produtos petrolíferos, aquelas migalhas que nós também temos, como acréscimo permanente ao ISP. Temos igual arrebenta carteiras, mas só por raquitismo financeiro. Somos realmente mesquinhos!
Eu sei, estimado leitor, que a política francesa pouco te diz. Mas sabes, eu sou um pouco mirolho – olho para uns, para ver os outros. Não queria, o senhor Costa, criar uma taxita de Protecção Civil? Não se fala em aumentar a taxa do audiovisual? Não andamos nós a contribuir de má cara para as renováveis, como se comprássemos acções com cada factura da luz, sem que nos remetam uns cupões convertíveis em Bolsa?

Mas deixa que continue a esmiuçar argumentos à francesa. Aumentavam os combustíveis, diziam ministros a eito, mas criavam incentivos fiscais para a aquisição de viaturas eléctricas. Só mesmo de quem está a mandar os outros abaixo de Braga. Farás ideia, amigo leitor, de quantas pessoas estariam em condições de adquirir uma viatura eléctrica, podendo recarregá-la, da noite para o dia, na sua cómoda garagem individual?
Arredondo. Há umas quantas coisas que só fazem sentido na cabeça de quem não tem que arrebentar com a cabeça para fazer contas à vida. A democracia que temos já não chega. Nesta democracia perversa não existimos senão como número fiscal. Lá, em França, apanharam aqueles papelitos que mandamos para Bruxelas. Azar, as continhas eram outras. Do que previam arrecadar, com o acréscimo de imposto, apenas uma pequena parte era consignada à transição ecológica. Hélas! Tiveram que arrepiar caminho. Deixo-vos com a Marselhesa, na versão do Roberto Leal: ai bate o pé, bate o pé, bate o pé…

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