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Low Costa

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Low Costa

Ideias

2019-05-12 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Não pisamos a Terra para sempre, e o Céu será uma utopia dobrada. Morremos, mas gostam, os que ficam, de pressentir que a partida de um próximo não se deu de forma humilhante, que a vida de um amado não foi abreviada por laxismo ou menosprezo de mangas-de-alpaca. Ora, poderão senti-lo, poderão dize-lo, os familiares do cidadão, cuja biopsia marcou passo entre o hospital de Faro e o IPO de Lisboa? Terá sido por famigerada falta de tecto financeiro, por um aperto orçamental à moda do Centeno? Quão lodoso vai o paraíso do Costa! Com tiques altaneiros, quantos sapos não terá a Temido tremida para engolir? Sindique-se!
Olhamos para os ricos e secam-se-nos as babas nos queixais. Arre, país assíncrono, onde nada falta a uns, e tudo se faz incomportável para outros. E lá vem a explicação – a pobreza da terra, a aselhice do homem, mas do homem-trabalhador. Ainda esta semana, essa asséptica Pordata – braço virginal estatístico de uma fundação de supermercado – nos atirava com um indicador de métrica divina, o da produtividade aparente, alertando-nos, em uníssono com o BdP, para os perigos dos aumentos salariais. É disco arranhado.
Por favor, virem a cabeça ao prego de contabilidades de sumir, invariavelmente para o mesmo lado; por favor, devolvam-nos o Costa que punha vacas a voar. Eu quero ser passageiro frequente da COWAIR, eu quero ser recebido em braços por assistentes de cabine de rosa ao peito e botas de montar, eu quero que um César, comandante augusto, me coloque nas nuvens com suavidade de gestos e hipnótica voz de trovão.
Três vivas à central de metáforas do PS. A solução de Rio para os professores, diz César, é um carro sem travões, ou com freios ferrados e rodas abúlicas. As contas, nem para as calendas gregas estariam acertadas, acrescentam. Sabemos que os números moldam-se ao chuço.
Tanto para dizer, sobre a substância e sobre a forma. – A morosidade da regularização de um débito é razão bastante para que o declaremos improcedente? Ó para nós, a saldarmos tostão a tostão aos lombardos internacionais! – Nem com horas a menos, no horário, nem com aposentações aceleradas, dizem os puristas do orçamento... E se pagassem aos professores com títulos do tesouro, digo eu, descontáveis lá para qualquer dia?
Não alinha, o PCP, porque acha abusiva a cláusula de revisão das carreiras. – E não está em curso, insidiosamente, essa revisão?
Não alinha, a esquerda progressista, porque queria a solução para agora, por inteiro, sem prestações. Compreendo. Menos compreendo, porém, que se enfureçam mais com o dá, mas não dá, do PSD, do que com o “jamais” do PS. Sim, teria sido interessante ver a direita sintonizada com a esquerda, e o PS, que não está para etiquetas, a bater com a porta, em birras. E assim, por culpa de eleitoralismos demagógicos da direita, cairia um governo que a esquerda abomina. É tão linda, a política!
Talvez os professores ganhem mais do que o orçamento pode suportar. Talvez uma massa significativa de portugueses ganhe tão mal, que escapa ao escalão rasteiro de IRS. Talvez sejamos o melhor e mais perfeito exemplo de capitalismo esclavagista. Talvez nenhum dos esfarrapados intelectuais que nos conduzem valha uma menção na História. Por hoje, fico com um Costa por baixo, com um low costa CEO da VACAIR, se assim posso esticar a metáfora do transporte aéreo ao alcance das miragens de qualquer um. A metáfora, era bem esgalhada, o problema, é que empanca nas minguas e nos desvios da distribuição da riqueza, mas sobre isso não se pronuncia uma fundação da nossa praça.

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