Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Lérias!...

A sociedade e os comportamentos

Ideias

2010-03-26 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Claro que não vamos falar de uns típicos doces de Amarante que, juntamente com os “foguetes”, “papos de anjo”, “são Gonçalos” e outros, fazem as delícias de muitos, mas sim de palavreado, treta, patranhas e conversa fiada com que se vem entretendo os papalvos.

Ultimamente está em voga a problemática da existência de liberdade de expressão e liberdade de imprensa, que, além de perturbar as vidas política e jurídica portuguesas, já deu azo a uma comissão de ética e a inquérito parlamentar. E a muita conversa fiada, diga-se, porque nas escutas do Face Oculta teria sido descoberto um plano do governo para dominar a TVI e outros media, falando-se mesmo em atentado contra o estado de direito.

No entanto há a dizer-se, esclarecendo, que se está perante a figura do crime impossível devido à inexistência de objecto, pois para tal seria necessário que existisse um verdadeiro estado de direito, do que fundadamente se duvida. Na verdade, debruçando-nos sobre o “mundo” da democracia em que vivemos e onde “ os partidos não são tertúlias de café, são máquinas de conquista do poder” (Paulo Martins, JN, 18.3.10) e analisando-se o estado a que se chegou, é forçoso consignar-se que num país em bancarrota e de todo mergulhado em desemprego, miséria, promessas, grossa criminalidade e com perspectivas de um cada vez mais amargurado e desastroso futuro apenas vem vingando uma tola preocupação em se manter o poder, em alargar e sedimentar influências nos serviços, em colocar boys em certos cargos, em infiltrar “camaradas” e “amigos” em centros de decisão e controlo, procurando-se de todo em todo dominar o poder económico e condicionar os media para que tudo fique sob controlo. Aliás a coberto de órgãos “ditos” de isenção mas de duvidosa independência como as altas autoridades, os provedores e os observadores de conveniência, e com a política a eivar os CSM, CSMP e um Tribunal Constitucional de controversa genética.

Mas porque com o 25 de Abril até a asneira é livre (sobretudo esta!), vem-se assistindo a não poucas bacoradas como as de um Lacão e de um Assis a acusar a oposição de promover, com o inquérito parlamentar, um “assassinato de carácter do primeiro-ministro” (JN, 18.3.10), como se tal fosse possível. Neste caso, como no acima exposto, está-se perante um crime impossível, e por razões mais do que óbvias.

Quanto às liberdades de expressão e de imprensa, os seus conceitos, apesar de eventual confusionismo, são de facto dissociáveis pois de todo não se compaginam, se completam ou se compenetram em extensão e compreensão. Aliás, analisando-os nas suas profundidade, natureza, abrangência e essência há a consignar que um pode mascarar o outro, acobertando-o e falseando-o quanto às suas “realidade” e “verdade” existenciais, até porque as escutas no Face Oculta, o caso Mário Crespo, o fim do Jornal da Sexta da Moura Guedes e o já ouvido na comissão parlamentar permitem-nos descortinar várias e incontornáveis nuances e concluir, pelo óbvio, que a liberdade de expressão, de todo possível, nem sempre envolve, interage ou tem guarida na falada liberdade de imprensa.

Aliás é inquestionável haver uma certa liberdade de expressão, muitas das vezes a expressar-se na asneira grossa e em todo um ridículo que Abril sufragou e não taxou, pois só assim, com tal abrangência e amplitude, se compreendem e aceitam certas “liberdades” e “depravação” de linguagem, e os disparates e dislates de um Marinho Pinto, de uma Cândida Almeida, de um João Correia e de muitos outros cronicamente mergulhados em absurdos de “non sense”. Como a afirmação de “contaminação política” do MP bolçada pelo último, aliás um antigo membro do CSMP.

Quanto aos casos recentes que têm envolvido os media, pode realmente dizer-se, “prima facie”, que efectivamente há uma certa liberdade de imprensa, ainda que de contornos quiméricos, fantasistas e formais porque muito contorcionista e condicionada. Na verdade há notícias, comentários, relatos de factos e opiniões que tão só surgem nos media por ausência formal do famoso lápis azul, embora para desespero do poder político-governamental a quem agradaria todo um real silenciamento.

Simplesmente, ... o que também é inquestionável, tão desejado silenciamento acaba por processar-se de um modo mais sofisticado e encapotado, manipulando-se realidades, calando-se “verdades”, “maquilhando-se” factos e “disparando-se” mentiras. Até porque, a par dos “homens de mão” do poder nos media, aliás facilmente identificáveis por condicionarem realidades e miscegenarem verdades com escritos e comentários anódinos ou de conveniência, há todo um incomensurável número de “escribas” sem coluna, sempre de cócoras e a jeito para “escrever” o que e como convém, apequenando e relativizando certos factos e enfatizando outros. E nem sempre por convicções ideológico/políticas, diga-se, mas por uma questão de sobrevivência.

E se na realidade o lápis azul do anterior regime deixou de actuar, exige a verdade que se aluda a outros “lápis” e “canetas” de tinta mais ou menos invisível que vêm impedindo uma autêntica liberdade de expressão, amarfanhando-a, envolvendo-a e encapotando-a no celofane de uma condicionada liberdade de imprensa, que a ERCS, diga-se, nem sequer consegue disfarçar e ultrapassar.

Encapotadamente, note-se, já que não passam de simples lérias as tão faladas liberdades, porque acomodadas e ajustadas a cinzentismos e a contorcionismos de conveniência, o que aliás têm muito que ver com dinheiros de publicidade, publicitação de actos oficiais, ajudas, subsídios e furos jornalísticos mas a que acrescem “ideias”, “amores políticos”, “compromissos” e “jogos de interesses” dos “donos” dos media, por norma sempre muito vulneráveis às “pressões” do dinheiro da Banca, onde, curiosamente, estão colocados “amigos” e “homens de confiança”.

Com tudo a ressudar enorme cobardia, a verdade é que até não nos surpreendem de todo certos cinzentismos, cooperações amorfas e o grande número de escribas viciados em posições de cócoras dado estar em jogo a subsistência de certos media, empregos e vidas e assim se poder evitar ameaças, observações e medidas com possíveis e nefastos reflexos num quadro de sobrevivência.

Aliás com linhas editoriais de elasticidade difusa, afogadas em contorcionismos cinzentos, acomodadas a jogos de conveniência e de “rabo entre as pernas”, natural e consequentemente as liberdades de expressão e de imprensa não passam de meras lérias, alapando toda uma bacoca mentira.

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