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Voz aos Escritores

2019-06-28 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Quatro patas no chão, muito pêlo e duas orelhas espetadas. Os olhos irrequietos como o corpo, traquinices e roedelas feitas a acompanhar buracos no quintal.
O meu tio Jaime chegou um dia a casa com esta novidade. Treinou-o intensamente pelas ruas e montes de Lamaçães até ao Bom Jesus. Era realmente uma delícia correr e saltar ao ritmo de gritos, festas no lombo e algumas cambalhotas. Chamava-se Farouk.
Duas vezes por dia era solto da sua casota, engenharia montada e construída pelo meu tio. Andava pelas ruas e campos (Lamaçães era ainda uma aldeia com um aglomerado de casas à volta da Igreja e um vasto vale de quintas antes de se chegar à cidade via Santa Tecla), às vezes entrava pelas portas abertas dos vizinhos. Parecia um lobo e por isso algumas pessoas, no início, tiveram-lhe algum receio. Muitos davam-lhe comida e carinho. Regressava sempre a casa. Mas sempre é muito tempo e há sempre uma vez. No caso do Farouk também houve uma vez em que se embrenhou pelos montes e se perdeu até chegar a um restaurante na Falperra.
Durante dias os vizinhos esperaram a visita habitual, espreitaram os caminhos, chamaram pelos quintais. O meu tio, a minha madrinha e o meu pai procuraram toda a zona. Até a minha avó se fartou de chamar por ele e choramingar pelos cantos.
Até que o meu tio o encontrou, passado mais de uma semana, num restaurante na Falperra. Estava bastante mais gordo e dormia no quarto com um menino, filho do dono do restaurante. Foi com pesar que o trouxe de regresso a casa. Ainda assim, frequentemente levava-o a matar saudades desse menino que tão bem o acolheu. Pouco depois apareceu o Tari, um cão mais pequeno, preto, que por lá ficou a atazanar a vida do pastor alemão que pacientemente lhe ia cedendo espaços e paciências.
Anos mais tarde também tive uma pastora alemã que nos seduziu, a mim e ao Miguel, numa loja de animais num centro comercial. Ainda chegamos a sair de lá, mas não conseguimos atingir a meta caseira sem antes regressar para resgatar aquele par de olhos da dita loja. Ela cresceu com as tropelias habituais, mais as inerentes a um feitio peculiarmente teimoso.
Meses mais tarde a vizinha de cima, que tinha uma cadela pequena e temperamental, toca-nos à campainha a pedir para ficar com uma bola de pelo preto, olhar assustado, toda tremeliques qual gelatina em mão de criança. Tinha um fim-de-semana fora combinado com amigos e a Troika era extremamente ciosa da sua dona, pelo que não tolerava a presença de outra patuda na sua vida. Tinha apanhado a bola de pelo preto na rua, cheia de carraças e desidratada. Já a tinha levado ao veterinário para fazer a devida desinfestação, apenas precisava que ficássemos com a dita bola durante o fim-de-semana. Iria arranjar quem ficasse com ela, mas precisava de tempo. Tudo bem, Marisa, vai tranquila. A Terra parece não rejeitar a intrusa, por isso não há problema. Pronto, no Domingo à noite venho então buscá-la.
O que se iniciou com algumas rosnadelas inconsequentes pelo espaço invadido tornou-se uma relação de admirável expansividade e afirmação de tenacidade de uma bola de pelo preto perante uma pastora alemã de quarenta quilos. À segunda noite já dormiam enroscadas no mesmo ninho, partilhavam gamelas de água e de comida, numa revelação do instinto maternal da mais velha. A Preta, como ficou baptizada, bebia e comia tudo quanto lhe púnhamos, síndrome de cão abandonado que nunca chegou a perder totalmente.
Quando a campainha tocou no Domingo à noite, não precisamos de falar mais do que com os olhos. Mariza, esquece lá isso, já não a levas. A sério? Mas até já tinha um casal amigo à espera para ficar com ela. Pois, está bem. Mas certamente arranjas outro ou outra necessitada de abrigo para os teus amigos. Esta fica connosco.
E arranjou. Todos os bichanos que encontrava na rua acolhia, mesmo depois de ter sido mordida com gravidade, e a todos arranjava lar condizente.
A Mariza morreu há uns anos, vítima de um cancro agressivo. A Terra morreu há quatro anos, de velhice, depois de sobreviver a dois tumores no peito e três cirurgias alguns anos antes. A Preta, a nossa sobrevivente, ainda dorme na sua manta, no chão, ao lado da nossa cama. Ressona, toma comprimidos para o coração e para os rins, toma insulina duas vezes por dia e é uma luta para a conseguir pôr a comer algo que se quantifique decentemente. Quando o Miguel não está, é a Mafalda quem a injecta. Assim como também é com ela que a Preta dorme a primeira metade da noite.
Não trocaria nenhum dia da minha vida por um dia sem a minha patuda preta.
Caro leitor, as férias estão a chegar. Não abandone os seus animais. Não é só por eles. É sobretudo por si.

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