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Indignação

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Indignação

Ideias

2018-11-25 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

É raro, mas acontece, estar tão incrédulo que o mundo parece desprovido de sentido, incluso esta crónica. Que não faça o pleno dos que pontificam neste espaço, assinalo, porém, que escrevemos, porque achamos que há algo a dizer em favor do bem comum, força dos sinais que interceptamos, dos eventos nocivos que antecipamos, das alternativas que intuímos, porque vivamos, enfim, saturados de Identidade Social. Também o fazemos por cedência laudatória, por acentuado viés, o que penso que não seja o meu caso, embora tenha simpatias e elas sejam notórias.
Que a plataforma que venho de referir seja a que me impele e organiza este exercício semanal de reflexão: como fico eu (como ficamos todos nós) perante um assunto repassado de todos os ângulos, anos a fio, sem outra consequência que a do abatimento de uma estrada? E das mortes não falo por pudor.
Que do que é crime se ocupe a Procuradoria e os Tribunais, e que o desmazelo e a cupidez encontrem punição exemplar. Fiquemos nós com o facto bruto do deixa andar, do não há tempo para miudezas, do não há verba para obra graúda. Fiquemos nós na pele daqueles de quem se riram a cada vez que o assunto foi levantado. Fiquemos nós onde estamos, porque se a estrada abatida concerne a Borba e Vila Viçosa, por outros assuntos, bem ao perto, há quem acabe por ver-se desfeitado.
Em que sociedade estamos? Na do viver e calar? Na do calar, para podermos viver, sem que nos façam a cama, sem que nos vexem com as nossas próprias palavras? Quantas vezes nos fitam com condescendência, ante um reparo que ousemos, e quantas vezes não nos jogam um “cala-te para aí, que não sabes o que dizes”, proferido com as sobrancerias de autoridade auto-suficiente?
O caso da estrada que fez a desfeita de ruir talvez acabe em salomónica sentença: a culpa é de muitos, em geral, e de ninguém, em particular. E assim zigzagueia o Portugal dos escândalos passados a ferro, dos paninhos quentes, das águas de bacalhau, dos pequenos monarcas com motorista, dos padrinhos, das benesses e mordomias. Governar, gerir, antecipar, corrigir… deixa para lá, que é uma trabalheira.
Em Portugal não há coletes amarelos que saiam à rua num prenuncio de insurreição, não nos indignamos a tal ponto, mas afundamo-nos, nós e eles, numa vida sem jeito, assente em trabalhos sem jeito, em remunerações sem jeito, em taxas e impostos sem jeito. E até a porcaria de uma estrada, encravada entre paredes a pique, desaba sem jeito. A estrada do mármore roubado à má fila é o epítome de um paísito com liderzinhos anegados para que nada aconteça até ao fim do mandato, até ao ocaso do grande senhor rei desnudo.
Indigna-me, violenta-me, a procissão das puras omissões, engalanada com os tronos da confraria da nossa senhora do coça-as-costas, da pia irmandade do passa-culpas, da sacra congregação do chuta para canto, mui honroso cortejo solenizado pela filarmónica do assobia para o ar. No Portugal assimétrico, que encafua a estupidez de rufias, puxando as malfeitorias até ao crime de incêndio florestal, neste Portugal de banqueiros que não banqueiram, mas que em casa rodam, quando melhor deveriam coçar pantufas em quartinho mais modesto, é perfeitamente plausível que o assunto da via que teve o desplante de abater se arraste até à romaria de S. Nunca. É muita gente! São serviços a mais.
E assim, se com factos chapados não há rabo que bula, por que retórica de jornal haveria eu de abalar consciências? E lereis vós por que perda de tempo? Não será melhor pastar erva fresca e ruminar casados à primeira vista?

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