Correio do Minho

Braga, quarta-feira

"Eu não preciso de nada"

Saboaria e Perfumaria Confiança – pela salvaguarda do seu património

Conta o Leitor

2018-08-15 às 06h00

Escritor

“Eu não preciso de nada” é o que, correntemente, se diz entre olhares disfarçados e suspiros melancólicos. “Eu não preciso de nada”. Mas depois somos confrontados com momentos em que percebemos que realmente não temos nada, e que precisamos de tudo. Ironicamente, o ser humano tende a precisar do detergente para a loiça ou da estante para os livros que apodrecem nas caixas da garagem. Mas será isso o suficiente?
“Eu não preciso de nada” é uma frase que se diz quando o outro nos estende a mão, quando se oferece para ser o porto onde podemos abarcar os nossos navios nos dias de maior tempestade. O outro tem uma influência em nós tal que nos faz rejeitar a sua ajuda, a sua proteção, por insegurança, ou simplesmente vergonha. Mas porque fazemos isso? Porque damos mais valor ao detergente, ou à estante? A verdade é que nos dias de hoje vivemos numa depressão, numa correria, e não nos passa pela cabeça que precisamos de algo mais, e as pessoas esquecem-se de sentir: camuflam-se no trabalho, escondem-se na pressa e esquecem tudo o resto, esquecem-se de que a dor precisa de companhia, para ser amenizada, ultrapassada. Esquecem-se que não são nem vivem sozinhos.
Depois existem as pessoas que “precisam de tudo” mas não têm quem lhes guarde o navio. Vivem nas tempestades, nas intempéries, nos dedos julgadores da sociedade, nas palavras cruéis. Desde quando o mundo se transformou na indiferença e no egoísmo?
Pois bem, leitor, o Homem é um egoísta. O Homem é o maior inimigo do Homem, do amor, do coração, de si próprio. O Homem carrega as pernas cansadas de trabalhar, as mãos de estudos e de saber, mas traz a alma vazia. Não é possível viver numa sociedade assim, se é a isto que se chama sociedade.
Por isso a palavra “precisar” é tão escassa, tão inútil. As pessoas vivem a precisar do que não precisam e a não precisar do que realmente precisam. Todos nós precisamos de algo que nos faça sentir completos, e não é o detergente que nos faz sentir dessa forma, é o calor. O calor de um abraço, o calor de um gesto, o calor de uma palavra de afeto.
“Eu não preciso de nada.”. Não! Eu preciso de muita coisa. Posso tê-la, mas continuar a precisar dela. Não tomo como certo aquilo que hoje tenho. Tento procurar o que preciso e não tenho e manter o que preciso e tenho a sorte de ter.
“Eu não preciso de nada”, diz-se, entre olhares disfarçados e suspiros melancólicos. Vamos aprender a dizer “Eu preciso”, mesmo que tenhamos. Porque amor, amizade, companhia, portos que abriguem os nossos barcos, são coisas que nem muitos têm, e outros têm a sorte de ter. Mas uma coisa têm todos em comum: o precisar. 

Ana Teresa Cruz

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.