Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Estupidez, insensatez ou algo mais

Escrever e falar bem Português

Ideias

2012-03-30 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

Folheando-se os jornais e olhando-se para a televisão somos frequentemente confrontados com factos e notícias que nos causam toda uma estranheza, deixando-nos perplexos. E ficamos sem saber se isso se fica a dever a mera estupidez, tacanhês de espírito, insensatez ou algo mais dos directos intervenientes ou se, pelo contrário, tudo resulta e ocorre como sequência natural de um indisfarçável e já avançado desmiolamento colectivo com perda generalizada dos sentimentos de decoro, responsabilidade e de respeito pelos valores sociais e humanos.

Mas se a comunicação social vive e sobrevive graças a notícias, cachas, novidades e a casos de insólito sensacionalismo, custa-nos a admitir que os jornalistas desçam ao nível das “mulheres do soalheiro”, travestindo-se e acolhendo sem critério e sensatez tudo quanto lhes chega ao conhecimento, bolçando boatos, vomitando “dicas” e dando cobertura a quaisquer “fontes” sem operar as devidas análise e triagem do material a publicar.

Mas o certo é que uma geral insensatez e uma incontornável loucura comunicacional e informativa vêm tomando conta de tudo e todos, sendo muito corrente uma “soltura” de notícias e informações “a pedido”, de editoriais “direccionados”, de um “diz-se diz-se” de conveniência, a par de entrevistas “combinadas” e “à medida”.

Nem sequer se focando o caso do Domingos Paciência, “abafado” pelo estafado, habitual e absurdo sigilo das fontes, pode-se afirmar que, a coberto de uma comunicação social “a preceito”, o próprio país, aliás já em fase avançada de derrapagem e perda de valores morais e humanos, vem vivendo todo um processo de quebra de identidade, descaracterizando-se como uma nação personificada, respeitável e fiel a princípios e a uma cultura. Com tudo virado do avesso, com políticos e governantes sem verticalidade e “coluna” em termos de dignidade, carácter, respeito e amor próprio, Portugal apenas se vem entretendo a fazer o pino, quase sempre em cima do “colchão” da comunicação social.

Aliás, com as piruetas dos comentadores (?) e políticos “desempregados” ou em part-time, as facécias do Cavaco a dar uma no cravo e outra na ferradura, o Seguro em soluços de sufoco, o PCP na já gasta ortodoxia de dogmas e o BE em processo de decomposição, o Amanhã afigura-se-nos deveras assustador já que o governo sente-se “espartilhado” com o acordo da troika e mostra-se muito receoso de um corte nos créditos e milhões dos FMI, BCE e CEE, na realidade mais agiotas do que benfeitores.

Continuando-se com uma indisfarçável flacidez de coluna, faz-se de conta que se governa, se comenta, se trabalha e que há oposição, democracia e respeito pelos valores legais, humanos e morais, teimando-se sempre em dar voz e tempo de antena a “papagaios” de encomenda e a “acólitos” prontos a soltar “amens” nas “homilias” dos “sacerdotes' do poder político, e com a comunicação social sempre perto dos “altares”.

Na Av. Montevideu, no Porto, uma obra irá ficar pronta até Dezembro de 2012 não obstante no ano passado, e por despacho judicial exarado numa providência cautelar, ter sido ordenada “a suspensão imediata da execução da obra de construção” (JN, 1.3.12).

Mas o pino mantém-se, continuando a ser mandadas às malvas as decisões judiciais, as leis e as exigências de um Estado de Direito. E se o insólito do caso teve eco na comunicação social, que pensar então do projecto na Mouraria?!

Face a uma proposta da Congregação das Irmãs Oblatas e do GAT (grupo de activistas sobre tratamentos de VIH/SIDA), que apoia a criação dum espaço “Safe House” (trad: casa segura ), as “trabalhadoras do sexo” na Mouraria talvez se unam em cooperativa o que, a vingar, poderá derivar “no primeiro bordel sem a prática de lenocínio ou proxenetismo”. E muito naturalmente António Costa tão só afirma que “ainda não foi analisado o enquadramento legal que poderia permitir a existência deste negócio de sexo seguro em Lisboa” (JN, 1.3.12).

Mas a ideia está lançada e não será de estranhar que em breve muitas outras “Safe House” alastrem pelo país graças aos já usuais apoios e enquadramentos, manifestações de rua e costumeiras “vozes” de certos parlamentares, aliás como nas “estórias” dos casamentos homossexuais e aborto, pois, face ao crescente número de “predadores” e “trabalhadore(a)s do sexo” tudo é já de se esperar, continuando o pino.

Mas com ou sem enquadramento legal (a PGR teria autorizado, pasme-se!...) não deixa de ser chocante, insólito, inacreditável e de todo inaceitável que a Procuradora de Beja, em entrevista à TV, tenha informado e revelado o estado de espírito, sentimentos e as respostas do arguido Esperança no seu interrogatório no tribunal. Designadamente dando nota das suas explicações para o uso da catana, dos pormenores da família estar a dormir e das suas justificações para os crimes com a vergonha de que a família ia passar com as dificuldades económicas e não querer que a neta ficasse sozinha porque seria muito infeliz (JN, 1.3.12.).

Como diria o Herman no personificado “Diácono Remédios”, não havia qualquer necessidade... e isto tudo ultrapassa os limites de qualquer direito ou interesse público à informação, violando gravemente os deveres de contenção e reserva que devem nimbar os magistrados. Mesmo nos processos arquivados, o que ainda não era o caso, há formalismos e regras a cumprir, e impunha-se todo um decoro e respeito pela dignidade dos intervenientes e familiares e da própria acção judicial.

Aliás não se vislumbrando o mínimo interesse público na quebra do dever de reserva, impõe-se-nos dizer que a atitude da magistrada só é explicável pela incontrolável e censurável ânsia de fama e projecção aos holofotes da TV, o que nos leva a aconselhá-la, face ao seu pendor novelístico, a inscrever-se quanto antes na Casa de Criação da TVI.

E o Monteiro, sempre tão lesto a levantar inquéritos, a não encontrar-se já em “férias sabáticas” ou em “período de nojo” da função, devia esforçar-se em pôr fim ao perverso sistema de “vasos comunicantes” entre a Justiça e os media, assim “travando” a “justiça” popular, aliás sem formação e isenção para certos juízos e apreciações.

Aliás continua a ser insólito, incompreensível e inadmissível assistir-se à porta dos tribunais às conferências de imprensa de uns já useiros “papagaios” togados, “habitués” em paleio e nos “jogos de julgamento” pela opinião pública, comentando, ameaçando recursos, bolçando “provas” e falando em “erros” judiciais, e tudo isto apesar de seus “falhanços” em certos casos mediáticos. Mas ainda mais curioso, insólito e inaceitável é a habilidosa e oportuna acolitagem familiar com o perverso ressuscitar na TV de casos tidos como erros judiciários!...
Haja sensatez, decoro e vergonha na cara!

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