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Estalinismo laranja?

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Estalinismo laranja?

Ideias

2019-01-20 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Foi feio. Foi esclarecedor. Montenegro queria directas, porque não poderia exigir que Rio desse simplesmente a vaga. Mas estava ganho por antecipação. Rio estagnava, evaporava; Rio era leito e margens gretadas, sedentas de chuva reparadora, e nem um farrapo de nuvem. Que acene com 5 milhares de adesões, é lá Rio xamã de passes prodigiosos, que ofusquem o deslumbre de vaca que voa, de Centeno que em corredor da fama cintila?
Sucumbiria Rio à cilada do orgulho, da dignidade ferida? Se o insultassem do piorio, se preenchessem o éter com atoardas que reverberassem sem resposta – porque ninguém no seu bom juízo rebate a má-criação –, não bateria Rio com a porta, entregando-lhes o partido de bandeja, a eles, à elite esclarecida, aos truões da oposição eficaz?
Mil vezes cobarde, esse Rio, posto que ladeia o confronto. Não é rio, é bica inquinada de largo de vila às moscas: como afogará Costa, ribeiro que não dá água pela barba ao chevalier de Montenegro em justo mano-a-mano? Vede-o, ei-lo que se entrincheira em órgão subserviente, mas bem que o tiro lhe pode sair pela culatra. De dedinho no ar, aconselham-se os conselheiros com os seus cuidados, e vão com o cabo do momento, mas, em escrutínio secreto, está garantido que o Rio cai do cavalo marinho, ou não se constata que o tripeiro tem a substância de um pau de virar tripas?
Encurralado por microfone, entre a lente e a parede, é Costa que diz que as simpatias mútuas, a cumplicidade entre ambos, constituem um mito urbano. Ó palavra que solta, pois não vêm, os vaza-rios, verter que o desmentido vale por confirmação? Tantos contra um, até por Belém passa a romaria do frentismo orange-maçon. Apressa-se, o pretendente, a atestar que a audiência estava pedida há muito. E a que título a solicitou? E por que cortesias foi recebido? Ai, Marcelo, e nós que pensávamos que não descerias abaixo de telefonema para show televisivo!
Juntei cromos para crónica. Fiz cantos, linha e bingo, saciei-me com Soares, Pintos, Albuquerques, desfaleci com a entrega abnegada da trupe aos superiores interesses do partido, à causa pública. – Que tanto eles dão de si! – Que tanto por nós se incomodam! Gelei de vergonha, eu que interesseiro sou. Por penitência, dei comigo a engrossar a bajulação ao Grande Centauro da Luz. E fundi: o PSD é um partido estalinista! Ui, rapazes, fugide, não queirais sarar ruim doente. Fazende como o Santana, botai peito para loja nova, deixai o Rio-toranja entregue a bichos de museu.
Vota de dedo? Vota de cruz? Votam os conselheiros, de cruz em Rio, de médio hirto em Montenegro. Final da função. Compõe, o enjeitado, a melhor cara: diz que calará, que obedecerá, que correrá na pista que lhe derem, ou sozinho, mas em união espiritual com o partido, e que voltará lá para Outubro, a menos que Rio vire um Amazonas avassalador.
Derrotado, mas cantante, o garnisé. – Ganhar? – O PSD? Mas em que universo paralelo? Ganharam por baixo, nas últimas, aqueles que exigem a terceiros a vitória que não foram capazes de construir. Ele há gente com lata. Queria, Montenegro, dar uma de Costa, e acabou por dar à costa, naufragadinho de todo.
Mas que corajoso ele foi, porfiam os acólitos. Mas que mérito não tivemos, dizem os próprios, reclamando a ressurreição do partido. Talvez Rio valha mais do que demonstra, e frágil seja a sintonia da estação mais o corpo de assalto. Os outros, como se viu, estão afinados e não fazem tensões de arrumar as botas. Por muito que se clame que a política paga mal, ele há contorcionistas que não desamparam a loja. É estranho.

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