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Eleições para o Parlamento Europeu, as mais importantes de sempre

Nelinha

Eleições para o Parlamento Europeu, as mais importantes de sempre

Ideias

2019-05-19 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

O folclore já está na rua. Bandeiras, desfiles, comícios. Abraços e beijos distribuídos a esmo, como se não houvesse amanhã. Visitas a mercados e feiras, a lares e colectividades, que os candidatos jamais voltarão a pisar, a não ser que voltem a ser candidatos. A demagogia erigida em norma de conduta. A política no seu pior, na manifesta intenção de caçar votos, seja a que preço for, para manter o poder ou para aceder aos rendosos lugares do poder.
Estamos em plena campanha eleitoral para as eleições europeias, que visam eleger, a 26 de Maio, os 750 deputados do Parlamento Europeu (PE).

Apesar de serem mais umas eleições para o PE, estas são consideradas eleições como nenhumas outras, e também as mais importantes de sempre, porque nunca, como neste ano, o espectro da subida dos partidos da extrema-direita e populistas esteve tão evidente, e perigoso, havendo quem considere que possam vir a constituir o terceiro maior grupo político na arquitectura do próximo parlamento. Nos nossos dias, os populistas e extremistas apenas não estão representados, honra lhes seja feita, nos parlamentos nacionais de seis países: Portugal, Irlanda, Luxemburgo, Malta, Roménia e Reino Unido.

O dramatismo previsível deste acto eleitoral, cuja propaganda nos entra diariamente em casa pela comunicação social, levou mesmo à elaboração de um apelo comum pelos 21 presidentes da República da União Europeia, visando exortar os cidadãos a exercer o seu direito de voto. Foi o caso dos chefes de Estado da Bulgária, República Checa, Alemanha, Estónia, Irlanda, Grécia, França, Croácia, Itália, Chipre, Letónia, Lituânia, Hungria, Malta, Áustria, Polónia, Portugal, Roménia, Eslovénia, Eslováquia e Finlândia. Os líderes europeus lembram que, expressando uma vontade comum, os povos da Europa se uniram criando uma União Europeia, que assenta nos princípios de liberdade, igualdade, solidariedade, democracia, justiça e lealdade entre si.

Uma União Europeia que se consolidou como projecto que visa melhorar a vida das pessoas mas também construir uma paz duradora para o espaço europeu. Uma União Europeia que é um projecto certamente com erros, assimetrias, burocracia, mas que permitiu ao longo de mais de seis dezenas de anos desenvolver o espaço europeu, como lugar de livre circulação de pessoas, bens e serviços, ideias e conhecimento.

Hoje, a Europa é inequivocamente um espaço aberto, por onde os cidadãos circulam livremente, sem barreiras alfandegárias, sem passaportes, sem controlos aduaneiros, como era tradição. Lembrar essa liberdade de circulação é lamentar as sombras negras que pairam sobre a Europa, trazidas pelas formações extremistas de direita, populistas, que crescem e se robustecem com a pobreza, cuja força advém do desemprego, e sobretudo do medo do que é diferente. Por isso, os partidos de extrema-direita e populistas acenam com o regresso ao passado, do encerramento de fronteiras e a ausência de circulação. Os extremistas radicais que ameaçam o projecto europeu são basicamente gente formatada ideologicamente contra a emigração, a livre circulação de pessoas e bens pelo espaço europeu, e também contra os refugiados. Todos metidos no mesmo saco, como se fossem realidades idênticas, e não são. Porque vão roubar casas e ocupar empregos, que devem ser para os residentes. Por isso, os sentimentos de xenofobia e racismo, que alastram pelos territórios.

Claramente, custa a entender que haja pessoas que neguem o curso da História, pelas razões mais mesquinhas. As migrações são tão antigas quanto o é a história da Humanidade. Desde que o homem é homem que se desloca entre locais e países. É da sua própria essência e identidade, e daí não vem mal ao mundo, a não ser para os radicais de direita que se preparam para infernizar a União Europeia, como meninos mimados da civilização para a qual nada contribuíram.
Da mesma forma, o entendimento dos refugiados passa pela certeza de que são pessoas desprotegidas, vulneráveis, desesperadas, que abandonam os seus países, os seus lares, as suas famílias, o seu conforto, as suas profissões e ocupações para arriscarem vidas e futuros, fugindo da guerra, da fome, da miséria, das ditaduras.

Como é possível não ter coração para acolher os refugiados que pretendem escapar ao desespero, à angústia, à morte?
Claramente, é nesta área que os extremistas e os nacionalistas desenfreados jogam os seus trunfos políticos miseráveis, para construírem uma Europa que regressa ao passado, às fronteiras, ao fechamento em si. Que teria sido da Europa e do Mundo se não fossem os emigrantes, que historicamente enriqueceram países e nações com saberes, conhecimentos e recursos financeiros?
Por isso, é que as eleições de 26 de Maio são mais que importantes e apelam a que os democratas não fiquem em casa. Eles têm que dar o exemplo da sua cidadania activa, considerando que factores como a integração e a unidade europeias são essenciais para a solidificação da União Europeia. E também para considerarem que os efeitos das alterações climáticas, do terrorismo, da globalização económica e das migrações não ficam confinados às fronteiras nacionais. São assuntos que a todos os cidadãos dizem respeito.

Por conseguinte, sendo a Europa o que quisermos que ela seja, é a favor da diversidade de ideias, da pluralidade de opiniões, da abertura de fronteiras, das parcerias entre povos e países que queremos construir um ideal comum.
Numa época marcada por (insuportáveis) muros, queremos uma Europa de ideias brilhantes, de homens conscientes e de projectos que beneficiem os povos.
Portugal muito deve à Europa, que patrocinou o seu desenvolvimento global, através dos fundos comunitários. Não esqueçamos que muito do que somos nas últimas três décadas, nas cidades e aldeias de Portugal, à Europa o devemos, das auto-estradas à recuperação de aldeias, da formação profissional à mobilidade de jovens pelo espaço comunitário.

Por muito que critiquemos o projecto Europeu, o desenvolvimento dos países deve-se às políticas de coesão desenvolvidas pela União Europeia. Por isso, se estamos melhores, mais ricos e mais livres, num território pacificado e tranquilo, como cidadãos da Europa e do Mundo, só podemos agradecer ao projecto que nos abriu fronteiras, utopias e sonhos. A Europa é a melhor ideia que alguma vez tivemos. Por isso, há que apoiar essa ideia, votando no projecto europeu. Que obviamente não passa, não pode passar, por extremismos, nacionalismos, radicalismos, segregacionismos. Mas pelo fortalecimento do ideal desta casa comum que honra as democracias, as liberdades e os direitos humanos!

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