Correio do Minho

Braga, sábado

East Coasting + Electricity no Museu da Imagem

Investir em obrigações: o que devo saber?

Correio

2010-03-27 às 06h00

Leitor

No Museu da Imagem, encontram-se patentes as exposições East Coasting de Rodrigo Amado e Electricity, de António Júlio Duarte. Os artistas percorreram a costa leste dos Estados Unidos numa longa digressão, Rodrigo Amado como saxofonista do grupo de jazz Humanization 4tet e António Júlio Duarte como motorista da banda. Ambos fotógrafos, registaram a prolongada viagem de forma diferente.

António Júlio Duarte parece procurar pormenores e detalhes, que coloca no centro da obra e da reflexão. Nas suas fotografias cruas observamos muitos elementos referentes ao universo musical, como amplificadores, cabos e tambores desgastados que remetem para significados mais profundos. Neste sentido, o fotógrafo revela que em Electricity procurou “materializar a música”. Destacando uma obra em particular, saliento o retrato de uma rapariga com uma t-shirt da banda Sigur Rós, que chama sobretudo a atenção pela forma como a modelo fitou a câmara, e consequentemente o espectador. Um segundo retrato destaca-se, mas por motivos distintos: António optou por não fotografar a cabeça da pessoa. Se no primeiro retrato a expressão facial nos capta logo o olhar, no segundo somos obrigados a centrar-nos noutros elementos: na camisa entreaberta, nos seus buracos, no bolso rasgado, na garrafa de álcool…no fundo, sinais do desleixo. Assim, o artista, através da omissão do rosto, conseguiu retirar a identidade ao modelo e torná-lo na representação de um estereótipo.

As fotografias de Rodrigo Amado não focam tanto o universo musical, mas o “espaço público, revelando de forma mais clara a ideia de percurso”, disse o director do Museu da Imagem. A perspectiva de Rodrigo aborda mais o sentido da viagem, mostrando frequentemente estradas e lugares de digressão. Esses locais são muitas vezes contrastantes ilustrando, por exemplo, a oposição da paisagem natural com a citadina, dos verdes com o betão.

Durante a inauguração, Rodrigo falou do papel do curador na criação de uma narrativa com as fotografias do artista. Habitualmente, deixa a ordem das fotografias a cargo da instituição que acolhe e afirmou ter gostado muito da escolhida para esta exposição. Admite que a disposição das obras pode influenciar a leitura do espectador e sugerir aspectos nunca pensados pelo artista.

Interrogados acerca da influência da música nos seus trabalhos, os fotógrafos concordaram que para além de servir de cenário, os “influenciou de forma inconsciente”. No caso de Rodrigo Amado, a influência musical surge inclusive no nome do projecto. East Coasting é o nome do álbum de Charles Mingus, consagrado baixista e compositor de jazz. Rodrigo Amado explica que procura que a sua fotografia seja “acessível como a música de Charles Mingus”, não deixando ao mesmo tempo de ser complexa.

A pergunta que surge é: em que medida combinam East Coasting e Electricity? Para Rui Prata, director do Museu da Imagem, as duas séries dialogam entre si «corporizando dois projectos que se completam», mas de que forma? Os lugares são aparentemente comuns, é certo, porém os olhares e técnicas são distintas. António optou pelo formato quadrado e por fotografias de uma dimensão mais reduzida, numa tentativa de criar uma relação de proximidade do espectador com o objecto fotografado. Já as fotografias de Rodrigo são rectangulares e de maior dimensão. Num primeiro momento obrigam-nos a afastar para perceber o todo, mas de seguida exigem uma aproximação para perceber os pormenores. Apesar disso, East Coasting e Electricity complementam-se e dão-nos uma perspectiva diferente dos locais percorridos. No fundo, os dois projectos em conjunto oferecem uma visão mais rica e completa do que foi a digressão, dos seus percursos, momentos e emoções.

Gostava de terminar relembrando a riqueza que as inaugurações podem trazer para a compreensão das exposições. Constituem uma oportunidade de obter explicações mais profundas sobre as obras expostas, frequentemente dadas pelos próprios artistas, para além do convívio com outros profissionais do meio artístico. Por isso, aqui fica o convite para que o público interessado em fotografia compareça às sessões de inauguração das próximas exposições.
Para quem não teve oportunidade de ir à inauguração, East Coasting e Electricity podem ser vistas e revistas até amanhã no Museu da Imagem.

Sara Pinheiro
Aluna do Curso de Estudos Artísticos e Culturais da FacFil (UCP),
em estágio no Museu da Imagem



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