Correio do Minho

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Desvarios

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Ideias

2010-09-03 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

José Amaral (JN, 23.7.10), evocando o “generalizado desregramento social em que estamos mergulhados, a desonestidade intelectual, a inveja tacanha, a hipocrisia tentacular, o egoísmo soberbo, a cultura do banal” em que vimos vivendo, compôs como título dos seus desabafos algo que já se apresenta como uma certeza : ”Um país sem amanhã”. Um país em que “enganosas miragens sobrepõem-se às tristes realidades, construídas por autênticos falsários, que tudo delapidam em proveito próprio, à margem dos caminhos da honra e da rectidão” (id.).

E tudo isto devido aos desvarios de certos “poetas” da liberdade, da democracia e de utópicas e irrealistas fantasias, enredados de todo nas malhas de uma partidocracia mafiosa em que se vêm estribando jogos de interesses e um “respirar” maçónico.

Ultimamente vem-se falando em revisão constitucional, e apesar das críticas de alguns num quadro de oportunidade, é forçoso admitir que Portugal se configurará como “um país sem amanhã” se não houver a coragem de erradicar todo e qualquer idealismo quimérico, desajustado e insustentável e ultrapassar os vícios e desvarios da actual democracia (?!) corporativista. Na verdade qualquer socialismo, liberalismo ou neoliberalismo tem forçosamente de se confrontar com as realidades de um povo numa situação de miséria, sem emprego e com fome, suas necessidades, urgências e as suas muitas limitações económicas e estruturais.

Um povo que não pode dar-se ao luxo de sustentar uma classe política egoísta, interesseira e de todo inútil, alimentando vaidades, pavoneios de gargarejo e “projectos” de louca utopia, nem deixar-se levar pela conversa de lunáticos, tonterias ou subservientes imitações da estranja.

Sendo manifesto o espírito corporativista que invadiu e vem vingando nos nossos políticos, impõe-se de todo que se vença tal “corporativismo” e se tenha a coragem de arrepiar caminho no despesismo público, cortando-se com os gastos desnecessários e as despesas supérfluas ou inúteis, pondo-se fim desde já aos cargos e lugares de “enchimento” e “reconhecimento” a “boys”, amigos e corrreligionários.

Temos vindo insistindo que o país não carece de tanta gente a “mamar” no erário público, de tantos governantes, assessores, altas autoridades, provedores disto e daquilo, deputados, gestores e administradores de institutos e empresas estatais e camarárias, sendo imperioso todo um corte no seu número e no despesismo louco que vem agravando um défice já de si assustador e acabar com os clientelismos.

Muito se poupou, muito se trabalhou e muito ouro se arrecadou nos tempos de antanho, ainda que com reflexos perversos no nível e qualidade de vida do povo, mas Abril, por contraste, fez brotar e crescer toda uma corja de “comedores” e de loucos “palradores” que têm vindo a desbaratar os dinheiros públicos, criando uma situação insustentável. Da qual vêm saindo sempre por cima, impantes, cheios de razão, inocentes e .... até milionários.

Anotando-se que “em Junho, o défice do Estado ultrapassou em 462 milhões de euros o valor de 2009 e que de Janeiro a Junho foram gastos mais mil milhões do que no mesmo período do ano passado”(JN, 23.7.10), não se vislumbra entretanto qualquer diminuição nas despesas públicas e vem-se combatendo o défice aumentando os impostos e cortando nas regalias sociais.

Com a situação do país a degradar-se dia a dia e a resvalar para o descalabro total, continuam os políticos a debitar “conversas” de chacha, disputas de “galinheiro”, sessões de pavoneio, atitudes popularuchas e de propaganda, não se entendendo entre si nem assumindo as realidades da crise dum país, todo ele a gritar por medidas e acção. Aliás as palavras e o alerta do Bispo Carlos Azevedo impressionam e merecem o aval de quem sente no corpo as dolorosas realidades da vida, não sofre de curteza de vista nem tem liames políticos, ainda que muitos optem por se refugiar na “caridade” dos impostos que pagam, no silêncio das suas “esmolas” e em toda uma crítica fácil, sinalizando oportunismos, popularidade, etc., e vivenciando até um certo ateísmo para “esquecer” e ultrapassar tais palavras.

Palavras em que, transpirando todo um preocupante realismo, se reclama “um «pacto social justo», se apontam «desigualdades gritantes» e se referem as «realidades dramáticas» que vêm afectando os mais desfavorecidos” (idem), alertando-se que “situações extremas de pobreza e fome podem conduzir à revolta e violência, numa sociedade de desigualdades, em que gestores ganham «ordenados fabulosos» e pesssoas que cometem actos lesivos de «milhões de euros» ficam sem castigo” (id.).

Palavras duras, note-se, referindo-se que “o governo não tem sido forte para os fortes mas apenas forte para com os mais desfavorecidos”, pedindo-se mais rigor na forma como se gasta o dinheiro público e culpando-se o governo a nível de fiscalidade e no combate às desigualdades . Aliás a criação de um Fundo Social comum sob a égide da Cáritas, que já contribuiu com 30.000 euros, perfila-se como um apoio valioso para as vítimas da crise e da pobreza, justificando-se de todo o repto lançado aos políticos cristãos para doarem 20% dos seus salários para tal fundo.

E se, nas respostas, sublinhamos o “espírito evangélico” de Alegre ao referir já descontar muito nos impostos e os “conhecimentos religiosos” do Silva Pereira ao dizer “quando participo em acções de caridade, nunca faço propaganda disso (...) quando há acções de caridade, nem a nossa mão esquerda deve saber o que faz a mão direita”, rotulando o assunto de “propaganda e popularidade fácil” (JN, 24.7.10), não deixamos de concordar que tendo sido os políticos os culpados pela crise, continuando a “engordar”, eles a deverão pagar. O que nem sequer é de todo uma ideia demagógica como pretende fazer crer M.A.Pina (JN, 27.7.10).

Aliás as palavras do bispo Carlos Azevedo, retratando realidades e misérias actuais, devem merecer a atenção e a aceitação de todos os homens de bem, reclamando uma profunda e séria reflexão.

Estando caduco, nos seu âmago e contornos, o actual sistema político e sendo muito grave a situação do país e suas gentes, tenha-se a coragem de mudança, reduzindo-se o número dos deputados, governantes e demais “comissários” do poder, limitando-se o número dos institutos e empresas sorvedoras dos dinheiros públicos, convertendo-se o T.Constitucional numa mera secção do STJ, acabando com a sua prefiguração. Em suma, há que reduzir o despesismo público e poupar, poupar e mais poupar, pondo-se termo às subvenções a partidos, comparticipações em actos eleitorais, ajudas de custo, senhas de presença, dinheiros de representação, etc., etc..., e a todo um conjunto de mordomias.

Haverá resistências, pois ninguém quer perder “tachos” e regalias e impera certo espírito corporativista entre os políticos com todos e cada um a defender os seus próprios interesses, mas não será desvario nem oportunismo popularucho e balofo pensar-se numa revisão constitucional séria, sensata e realista que ultrapasse as asneiras e as quimeras de loucos idealistas alheios à realidade do país. Pelo menos pondo-se fim às loucuras e mordomias de quem faz da política trampolim para as grandes fortunas, e vem engrossando o número dos milionários. E foram centenas no último ano!...

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