Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Descansem em paz

A sociedade e os comportamentos

Descansem em paz

Ideias

2019-02-08 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Sogra esventrada. Filha estrangulada. Ele, passado aos infernos não sei com que bilhete. Drama regurgitado pornograficamente, em directo televisivo, magnético ou revoltante, segundo inclinações. Informar é outra coisa, que não este resvalar para um empolamento recursivo dos factos, para mórbida engorda de ganso tolhido. Informar é conferir forma apreendível, é dar corpo a pistas e ferramentas para que fenómenos deste teor se façam raros. Mas onde esteve a Justiça, posto que queixas houve? Salve, fãs do Relatório Minoritário, ficção feita modelo desejável de acção penal.
A vida acontece diante de nós e arrasta-nos em excesso de velocidade. Tudo se precipita numa fracção de segundo. Um desvio, uma distracção, e damos por nós de pernas para o ar. Sim, talvez houvesse sinais bastantes de que uma tragédia estaria iminente; porém, como saná-la? Enclausurando o potencial agressor? Com que base? Por quanto tempo? Barrando o acesso às vítimas adivi- nháveis? Como? Deportando-o para uma Sibéria longínqua? O criminoso em gestação, que macera em caos interno, tropeçará inevitavelmente na oportunidade de manchar a luz do dia com nova abjecção. A menos que saibamos inverter o rumo dos acontecimentos.
Há uma intervenção que faz sentido, mas essa ninguém quer, suponho. Quem é que investe na atenuação do conflito, ainda que o objectivo não seja o da reconciliação do casal em rota excêntrica? Que juiz, que equipa de técnicos sociais e terapeutas, se coloca à disposição de um homem e de uma mulher desavindos, para que saiam com brios intactos de uma ligação íntima sem perspectivas, de uma relação que falhou por lacunas mútuas, por erros de cálculo e de processo, que nenhum dos intervenientes estaria capacitado para prever ou corrigir?
Fala-se demasiado da judiciarização e nada – quanto eu sinta – da reconstrução de ambos. A morte é o epílogo medonho da não-vida em tumba matrimonial, dos afectos que não se trocam já, dos planos pueris que deixaram de elaborar em conjunto. Bateu, é um facínora; foi golpeada, é vítima. Chocante simplicidade que pouco resolve. Vivemos com teorias e práticas obsoletas, acrescentaremos anos de pena para ficarmos de bem connosco próprios, imaginamos que campanhas de sensibilização darão resultados brilhantes, que mais uns tostões para refúgios alterarão a curva ascendente da insanidade. Ilusões.
Bem-aventurados os que sobrevivem as agruras da vida como se nada fosse, seja porque nada os eleva acima da futilidade, seja porque respiram um passo adiante da desdita libertadora. E aos céus graças que constituam maiorias. E, depois, há os outros, espécie de funâmbulos sem rede, espécie de ilusionistas de serrote verdadeiro e caixa sem fundo falso, que serram a partner no desfecho de truque nunca realmente aprendido. Já não digo que a vida a dois é um mistério – a vida de cada um consigo próprio é um enigma sem página de soluções no final do caderno.
Não sei que juízo farão da minha prosa. Nunca, porém, espero, o de que relativizo a infâmia. Limito-me a introduzir a ideia de um sofrimento insuportável, de uma percepção aguda de colapso, de uma perda catastrófica de controlo. E é aqui – ou bem antes deste ponto – que eu acho que deveríamos apostar as nossas fichas.
Sejamos inclusivos, pensemos a mulher e o homem como vítimas, ainda que ele o seja de si próprio, por força do que não sabe, do que não aprendeu. Pensemos que o amor maculado tem uma só saída: o resgate e a reconstrução de dois bons actores com papeis infelizes colados à pele. Mudemos de paradigma, corajosamente, que o actual leva a nenhures.

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