Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Desafio: salvar a social-democracia a partir de Portugal e Espanha

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Ideias Políticas

2018-06-12 às 06h00

Pedro Sousa

Em Portugal, o Partido Socialista vem, desde 2015, em diálogo e acordo com a restante esquerda parlamentar, afirmando uma agenda social-democrata, socialista, capaz de devolver rendimentos às famílias, de diminuir impostos, de descongelar as progressões nas carreiras, no fundo, de impor uma agenda que, todos os dias, procura devolver a esperança num futuro melhor, quebrando o ciclo sobre-austeritário do Governo Passos e Portas que, para além, muito para além do postulado no Memorando de Entendimento com a Troika, impôs ao País sacrifícios verdadeiramente inaceitáveis e ignominiosos.

Nestes três anos, Portugal foi, ao arrepio do que pensava a maioria do status quo europeu, capaz de mudar as políticas, contrariando a famosa TINA (There Is No Alternative) e com a alteração das políticas, sobre as quais muitos agitavam fantasmas e diabos, o Governo contribuiu para uma acentuada descida do desemprego, ao mesmo tempo que colocou a economia a crescer a um ritmo sem paralelo neste milénio.
Portugal fez tudo isto mantendo os seus números da dívida e do défice sob controlo, sendo hoje, na Europa e no Mundo, apontado como um bom exemplo.
Aqui ao lado, em Espanha, o PP de Rajoy, assolado por um terrível escândalo de corrupção, viu o parlamento aprovar uma moção de censura que, para além de conduzir à sua queda como primeiro-ministro, resultou, também e de imediato, na indicação de Pedro Sánchez, autor da moção, como novo primeiro-ministro espanhol.

Este novo quadro político espanhol, apesar de colocar o PSOE perante enormes desafios, sobretudo porque tem uma minoria bastante frágil no Parlamento, abre, ao mesmo tempo, a esperança de que Portugal e Espanha possam, em conjunto, pela sua acção e pelo seu exemplo, ajudar a salvar a social-democracia, dando-lhe a força e o impulso que, também por sua própria culpa, perdeu nas últimas décadas.
A verdade, é que ao olharmos para o mapa político da Europa e seguirmos a linha da antiga cortina de ferro, para leste nada resta senão populismo. Infelizmente, o problema não fica por aqui, tendo o populismo atravessado também os alpes e chegado a Itália, já dentro do sul da Europa.

Na França, temos Macron, mas não podemos, ainda, dizer que conhecemos bem a natureza de seu governo; o Reino Unido está em processo de divórcio/ /separação do resto do continente; Bélgica, Holanda, Luxemburgo, assim como a generalidade da Escandinávia apre- sentam exibem governos de coligação, tanto defensivos, como coloridos; a Alemanha, por sua vez, está absorta nas suas próprias dúvidas existenciais, não sabendo se deve juntar-se, a sério, a um projecto de aprofundamento da União Europeia ou permanecer como está, tolhida pelo medo do crescimento das derivas populistas dentro da mesma.
É, pois, curioso que seja apenas em Portugal e Espanha, do lado de cá dos Pirinéus, onde encontramos os únicos governos social-democratas compostos por apenas um partido. Portugal e Espanha têm, assim, uma grande oportunidade para repensar e exorcizar a profecia generalizada sobre o fim da social-democracia.

Em Espanha, a fraqueza parlamentar do governo do PSOE, reforça a ideia de que a sua sobrevivência passa, quase exclusivamente, pela sua capacidade de dar sentido aos valores mais nobres da social-democracia, afirmando um projecto de desenvolvimento humanista, solidário, inclusivo e onde ninguém fique para trás, ao mesmo tempo que ataca os problemas da dívida e do desemprego.
O caminho é estreito, difícil, mas talvez haja, tal como há 500 anos, quando Portugal e Espanha descobriram e conquistaram o mundo, um caminho virtuoso.
Esse caminho passa por definir muito bem quais são os desafios que temos que superar, entregando o melhor de nós ao trabalho de consolidar um modelo de convívio colectivo assente nos valores da boa sociedade, adaptando os mercados aos regulamentos, as fronteiras à abertura cosmopolita, a comunidade à individualização, a globalização à proteção social, assim como a inclusão social à diversidade e ao pluralismo.
Fazê-lo pode muito bem significar salvar a União Europeia, o mais belo projecto de integração política que o mundo conheceu, e esse é um objetivo que não pode merecer outra coisa que não o nosso maior empenho e compromisso.

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