Correio do Minho

Braga, terça-feira

Deixem jogar o Centeno

Repensar a Lógica do Livro de Instruções

Ideias Políticas

2017-12-12 às 06h00

Pedro Sousa

As críticas, por parte de amplos sectores da política e da sociedade portuguesa, à eleição de Mário Centeno para Presidente do Eurogrupo, as medíocres ironias paroquiais que por aí têm abundado, os recorrentes exercícios desqualificadores da importância e do poder efetivo do seu titular, bem como os prenúncios do pior para o futuro dos equilíbrios no seio da “geringonça”, são próprios da nossa natureza enquanto país.

Portugal é assim há muitos séculos, a inveja, o despeito e o ódio ao sucesso dos outros fazem parte da nossa matriz identitária como povo e são, não tenho dúvidas, uma das mais fortes razões pelas quais, muitas vezes, não passamos da cepa torta.

A verdade, aquilo que importa, é que a vitória de Centeno, ficando por confirmar aquilo que trará na prática, é uma fantástica vitória de Portugal, do Governo e uma fava de descomunais dimensões para toda a direita portuguesa.

São impossíveis de esquecer as terríveis e desrespeitosas gargalhadas com que Passos Coelho o brindou em 2015, na primeira vez que Mário Centeno se dirigiu ao Parlamento na qualidade de Ministro das Finanças ou as declarações de Marques Mendes que, em Abril passado, quando questionado sobre a possibilidade de Mário Centeno vir a ser Presidente do Eurogrupo, disse: “essa notícia só pode ser uma ‘partidinha’ própria do dia das mentiras'.
A verdade é que Centeno foi mesmo eleito Presidente do Eurogrupo.

E se não me custa nada admitir que tal facto se deveu, em grande medida, a uma geometria favorável de vários factores, é, também, inegável o peso que o sucesso da solução governativa implementada em Portugal, bem como os resultados por esta obtidos teve nesta conquista.
Conhecendo razoavelmente bem, como conheço, o jogo político europeu, assim como a ortodoxia dominante, não me sobram nenhumas dúvidas que a Europa não se arrepende um milímetro das receitas austeritárias que, sem dó nem piedade, impôs aos “malandros do sul” e que não está para breve uma profunda inflexão ao nível dos rigores do tratado orçamental, nem uma nova abertura para a discussão da reestruturação europeia da dívida, através, por exemplo, da sua mutualização pelos eurobonds.

O que terá, então, permitido tal desfecho? De entre muitas coisas, algumas que, provavelmente, nunca saberemos, a verdade é que, Centeno, cuja competência está mais do que demonstrada (não necessitando para isso de ter dirigido o Gabinete de Estudos do Banco de Portugal...), é alguém que demonstrou, na prática, que é possível manter fidelidade às metas do rigor macroeconómico sem, necessariamente, persistir na aplicação cega das receitas anteriores, isto é, explorando selectivamente algumas margens orçamentais, fruto do crescimento induzido e de fatores favoráveis da conjuntura, através de moderadas reversões que acabam por tornar a receita política e socialmente mais aceitável.

Centeno, digamos assim, provou ser possível 'humanizar' as políticas austeritárias e isso pode ser interessante para uma Europa em desespero de aceitabilidade e apaziguamento interno.
A pergunta final, aquela que mais se impõe, é se isso é bom para nós, se é bom para Portugal?
A resposta é sim, inequivocamente. Ainda que não pelas razões que, à partida, se imagina.
A chegada de Centeno à presidência do Eurogrupo é boa para Portugal não por ele ser português, mas, antes, por ser um economista que antes de chegar a ministro já escrevia que o principal problema do €uro era a desigualdade entre os estados e dentro dos estados (After the Crisis: Reform, Recovery, and Growth in Europe, Oxford University Press, 2016).

É claro que a eleição de um presidente que vê a desigualdade como principal problema da moeda única não significa que a desigualdade passe a ser a principal prioridade do Eurogrupo.
Mário Centeno não vai, obviamente, ganhar votos sozinho. Mas, como presidente, terá um poder muito importante, o poder central de escolher os assuntos que vão a discussão e, sobretudo, as matérias que vão votos.

Quem achar que isto é coisa pouca só pode andar distraído.
Vamos antes ser práticos, Portugal. Deixem jogar o Centeno.

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