Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Da abstenção e de quem não se abstém

A sociedade e os comportamentos

Da abstenção  e de quem  não se abstém

Ideias

2019-10-20 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

Já todas as análises e comentários foram feitos sobre as eleições legislativas do passado dia 6 de Outubro. O resultado não deixa margem para dúvidas: o Partido Socialista obteve uma vitória categórica, passando de 86 em 2015 para 108 deputados em 2019, mais 22 elementos, acabados de atribuir os deputados pela emigração.
O PS aumentou a percentagem e ganhou em número de votos e em mandatos, vencendo em 15 dos 20 círculos eleitorais do país.
O PS venceu as eleições com uma margem de nove pontos para o PSD mas ficou longe de conseguir uma maioria absoluta dos deputados no Parlamento, o que constituiu a maior vitória para todos os partidos concorrentes, como se tem ouvido por estes dias, embora esse não fosse o objectivo assumido de António Costa.
Outro vencedor foi claramente o PAN, que passou de um para quatro deputados, não se sabendo muito bem o que propõe este partido da moda, que pessoalmente rejeito, porquanto não aceito que se diga, como diz André Silva, que os animais têm tantos ou mais direitos que os humanos. Que se respeitem os animais, claro. Que se desvalorizem os humanos, uma ova. Quem assim fala, deveria dormir no meio das vacas e dos porcos, não na comunidade humana. O PAN não passa de um bluff, apesar dos votos que conseguiu.
André Silva é um humano que não me diz nada. Suscita-me desprezo…
O novo Parlamento vai contar com mais três “representantes do povo”, um de esquerda, o Livre, outro de direita, o Iniciativa Liberal e um de abjecta extrema direita, anti-sistema, o Chega!. Ou seja, os partidos extremistas, cultivadores do ódio e da segregação racial, chegaram finalmente a Portugal, o que é uma péssima notícia para a democracia.
A boa notícia é a de que, apesar da sua empáfia, do seu fogo de vistas, da prosápia de que agora é que há uma verdadeira oposição ideológica ou de que Portugal estava à espera de nós, não terão qualquer representatividade no quadro da Assembleia da República. No meio de mais de duas centenas de democratas, não passarão de maçãs podres. Curioso é verificar que partidos aparentemente com figuras mediáticas ficaram pelo caminho, sem qualquer representação. O Aliança é a sentença de morte de um Pedro Santana Lopes que se arrasta penosamente para continuar a ter alguma visibilidade, o que até dói.
Em contrapartida, a direita teve uma derrota histórica, perdendo exactamente duas dezenas de deputados. Porém, de evidenciar, pela negativa, foi o aumento da abstenção, que, pelas contas desta semana, após a contagem dos votos da emigração, atingiu a percentagem pornográfica de mais de 51%. Mais de metade dos eleitores não foram votar, o que é absolutamente lamentável. Todos nos recordamos de como houve milhares de portugueses que sofreram, foram presos, torturados, mortos, antes do 25 de Abril, para que os cidadãos adquirissem o direito a votar e, passados 45 anos, há tanta gente que desperdiça alegremente o momento alto da democracia, com os argumentos mais estapafúrdios, como se a política fosse o meio para que cada um de nós consiga os nossos pequenos objectivos (ter um emprego, arranjar uma entrevista, falar com o chefe, obter um lugar na escola secundária, lutar contra a exploração do minério, etc.).
Se não nos revemos em 21 partidos políticos que concorreram, da extrema esquerda à extrema direita, talvez o problema se resolvesse com 10 milhões de partidos, um para cada eleitor. Mesmo assim, não estou certo de que todos os eleitores se deslocassem às mesas de votos para exercer o seu dever cívico!...
Ainda assim deveria haver desculpas para não irem votar!
É claro que todos falam em “défice democrático”, até o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, que revela “desinteresse pela coisa pública e pode ameaçar a própria democracia”.
É claro que aponta no sentido correcto, ao sublinhar que o desinteresse dos abstencionistas pode ser (é) um sintoma de que a “actividade política precisa de dar um salto qualitativo”, exigindo-se que os políticos sejam fiéis às promessas que fazem, que sejam realistas, que procurem dar um testemunho de honestidade, de credibilidade.
Como escreveria, dias depois, Miguel Sousa Tavares, “os abstencionistas devem ser tratados como aquilo que são – auto-excluídos da democracia”.
Não merecem respeito mas a democracia deve procurar saber as razões por que há tão oceânico desinteresse pela coisa pública.
E seguramente agilizar instrumentos que levem a uma maior participação dos eleitores. Creio que um deles será a consagração do voto electrónico, porque não, a partir de um computador ou de um telemóvel em casa, na rua ou no café? Poupar-se-iam milhões de euros e haveria certamente mecanismos de controle, visando uma maior participação eleitoral.
E porque não instituir o voto obrigatório, como acontece em vários países, o que não retiraria a liberdade de não ir votar mas penalizaria os abstencionistas com condicionantes da sua actividade política e social.
É uma discussão que terá de se fazer, mais tarde ou mais cedo, sob pena de qualquer dia haver mais eleitos que eleitores neste país de Abril!


Quem não se abstém da sua cidadania, da sua humanidade, da sua responsabilidade cultural, social e cívica desde há décadas é o escritor e grande amigo José Manuel Mendes, que foi há dias justamente homenageado pela Universidade do Minho e pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, com o apoio da Câmara Municipal de Braga.
Aí foi evidenciada claramente a grandeza de carácter, a nobreza de espírito, o desprendimento, a paixão telúrica e a acção cultural em Braga e no país do escritor que é presidente da Associação Portuguesa de Escritores desde 1992, membro da direcção da BLCS desde 2004 e membro do Conselho de Curadores e do Conselho Cultural da UMinho, instituição onde lecionou durante duas décadas. Nasceu há 71 anos em Luanda, Angola, e veio para Braga aos 11 anos. Licencido em Direito em Coimbra, foi docente do ensino secundário e deputado. Foi condecorado diversas vezes, publicou cerca de trinta livros (poesia, ficção, crónica, ensaio, crítica, memorialística). Fez ainda letras para discos, lançou o CD “Últimos Barcos” (1998), proferiu recitais em vários países, dirigiu a revista O Escritor e programou as feiras do livro de Braga. Por outro lado, colaborou em inúmeros jornais, revistas, colóquios, crónicas de rádio/TV e em júris de festivais de cinema e literatura, como nos prémios literários Camões, Rainha Sofia e Calouste Gulbenkian. Destaca-se ainda pela sua cidadania ativa, atenta a abrigar múltiplas vozes e a defender valores humanistas, democráticos e culturais.
Um paradigma, uma voz, um auxiliador, cum cultor da língua, do estilo, da literatura. Um português maior. Um homem bom, que ficará na história, pela sua obra, pelo seu empenhamento cívico e cultural e pelo seu exemplo inexcedível!
Um homem que não se abstém de contribuir para um país melhor, mais culto e mais solidário!

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