Correio do Minho

Braga, sábado

- +

Carta a uma mãe que deitou o filho no caixote do lixo

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Carta a uma mãe que deitou o filho no caixote do lixo

Ideias

2019-11-11 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Cara mãe:
Escrevo-te esta carta numa altura em que sei que o bebé que geraste, e que abandonaste logo após o parto, ainda com vestígios de sangue e do cordão umbilical, nu e sem qualquer tipo de agasalho, num contentor de lixo, está fora de perigo. Segundo informações dos médico, o menino encontra-se clinicamente bem e estável.
Não sei se faço bem em apelidar-te de “mãe”. Sabes, uma mãe nunca abandona um filho, muito menos desta forma. E essa é a regra mais elementar em todo o reino animal: os animais não abandonam as crias. Não consigo sequer imaginar o que sentirá esta criança no dia em que souber que tu o meteste num caixote do lixo. Não consigo sequer pensar como é que ele vai lidar com esse sintoma de rejeição para o resto da vida.

A primeira pergunta que me ocorre fazer-te é: - porque fizeste isto? Pretendias simplesmente abandonar o bebé ou pretendias que morresse? Convenhamos que na primeira hipótese, a de abandono, sempre poderias ter optado por o ter deixado junto a uma entrada de um prédio, de uma igreja, ou mesmo no passeio, e envolto em algum dos teus agasalhos, um simples casaco ou camisola, ou mesmo um dos cobertores que tens dentro da tenda onde pernoitas. Desta forma alguém o recolheria, certamente, de forma rápida e sem riscos elevados para a sua saúde ou vida. No alto dos teus 22 anos compreenderás que essa seria a forma mais digna de te veres livre de um ser minúsculo e indefeso, que não pediu para nascer. Mas não, optaste por o despejar num caixote de lixo, ao frio e à mercê da morte certa. Como se uma “coisa” ou objeto se tratasse.

Mesmo assim fico com dúvidas. Até porque coloco ainda uma terceira hipótese: em boa verdade, e após o trabalho de parto, certamente no meio de dores e sangue, em pânico, nem pensaste nas consequências, porque tudo o que pretendias era “limpar” o teu casulo, uma mini tenda, um habitat onde não havia espaço para amor e família, apenas um reduto último de sobrevivência.
Confesso-te que soube do que se passou, na terça-feira passada, pelas redes sociais, que veicularam o abandono brutal de um bebé num caixote do lixo. Confesso-te ainda que, num “post” que publiquei também de imediato na minha página do facebook, apelidei-te de “monstro”. Foi assim que, chocado, atenta a superficialidade com que a notícia surgiu, reagi e te julguei. Monstro. Escória. Reles. Crime hediondo.

Mais tarde, soube que o bebé tinha sido abandonado pela mãe, uma sem-abrigo. Esse dado levou-me a refletir melhor. Afinal, na era das redes sociais, somos tão rápidos a julgar que nos esquecemos que o mundo não é a preto e branco, a vida é bem mais complexa do que a forma como os factos nos são dados a conhecer.
Hoje eu recuso-me a chamar-te monstro. Apesar de condenar o ato que praticaste. Não sei se és um monstro, ninguém o sabe. O que sabemos de ti, da tua personalidade, da forma como vives é muito pouco para partirmos para a condenação em praça pública. Sou advogado e em virtude da minha profissão já vi muita coisa. Já vi pessoas bem integradas na sociedade, pessoas boas que, num momento de loucura (porque sim, há “horas do diabo”), cometeram de igual forma atos monstruosos, daqueles que nunca julgaram serem capazes de cometer.

Não, não penses com isto que eu seria capaz de meter um filho, um bebé, no lixo, claro que não. Mas recuso-me a atirar-te pedras, sem saber as exatas condições em que te encontravas, como foi esta criança gerada, se com o teu consentimento ou não, o que te trespassou a mente, os medos e receios. Até poderei vir a concluir que és um monstro, que és fria na forma como relatas todos os eventos, que olhas para o que saiu das tuas entranhas como um pedaço de lixo que não tens de manter contigo. Ou não. Ou que afinal és um ser altamente perturbado e desesperançado, depressivo, que precisa de ajuda. E sim, nesse caso, mereces ser ajudada.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

08 Dezembro 2019

A Sueca

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.