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Breve retrato dos portugueses

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Breve retrato dos portugueses

Ideias

2019-06-16 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

No início deste mês e no quadro do seu 131º aniversário, o Jornal de Notícias publicou uma edição especial intitulada “Portugal ao espelho” e onde é traçado, em diversos tons, com o auxílio de um inquérito de opinião, o retrato dos portugueses, com curiosas conclusões a nosso respeito, a nível individual e colectivo.
Na verdade, é como se nos deitássemos no divã do psiquiatra, o que ajuda a perceber os nossos comportamentos, as nossas expectativas, os nossos sonhos e também as desilusões e antipatias.

Desde logo, fica a saber-se que os portugueses são desenrascados em qualquer situação, até na fuga ao dever de pagar impostos, o que não causa qualquer surpresa.
São assumidamente trabalhadores, o que se comprova sobretudo quando em organizações bem estruturadas, ou em contexto de emigração, em que de facto somos os melhores.

Preocupam-se com as crianças, sem dúvida, mas pouco com os mais velhos, que genericamente, e para vergonha colectiva, são tratados pior que os cães. Os idosos são largados nos lares e os cães são levados para os apartamentos, cuidados, bem alimentados, passeados diariamente, como autênticos “príncipes da casa”. Os idosos vivem cada vez sozinhos, cada vez mais pobres e triturados pela solidão e pelo abandono.
Os portugueses são um povo com fé mas que desconfia dos padres. “Uma fé sem igreja” – afirma o sociólogo João Teixeira Lopes. Acredita em Deus e na Virgem mas tem uma relação de suspeição perante a hierarquia católica, convicção agravada pelos sucessivos escândalos envolvendo membros do clero, mais recentemente com os inqualificáveis e inadmissíveis escândalos de pedofilia.

Os portugueses consideram-se maioritariamente bonitos e seguramente generosos, o que encaixa perfeitamente na colectiva e generosa resposta aos constantes apelos à solidariedade para tudo e mais alguma coisa. E os cidadãos não regateiam esforços para apoiar todas as causas solidárias e humanitárias.
Consideram-se também corajosos, ambiciosos e acham que são bem vistos lá fora. E que não são racistas, embora a atitude perante as comunidades ciganas ou africanas desminta aquela versão.

Fogem aos impostos, como apreciado e praticado “desporto nacional”, mas ainda assim têm-se na conta de mais ou menos honestos, apesar de andarem sempre a solicitar “pequenos favores”, que se instituíram já como cultura nacional. São mais ou menos felizes, mais ou menos cumpridores das regras, pouco se preocupam com o ambiente (nesse particular, os partidos políticos têm amplo campo de manobra, numa altura em que as questões ecológicas e ambientais estão a dominar a agenda política em toda a Europa…) e a organização é coisa que lhes passa ao lado. Então, surge o celebrado e imensamente praticado “desenrascanço”…
Os portugueses têm especial paixão pela família. Não existe nada nem ninguém em quem mais confiem. Salvo as pechas que antes se deixam indicadas.

A nível profissional, as profissões em que os portugueses mais confiam são os enfermeiros, os médicos, os professores, os polícias e os militares. Depois, mais ou menos e cada vez menos, numa escala descendente, os jornalistas, os empresários, os padres e os advogados.
A nível de confiança nas instituições, a primazia vai para o Presidente da República, seguindo-se, bem longe, o presidente da Junta, o presidente da Câmara (ambos pela proximidade aos cidadãos) e o Primeiro-ministro, com nota ainda positiva. A confiança menor vai para os juízes e os tribunais, os líderes sindicais, os líderes políticos e, por último, os deputados, que servem de saco de pancada dos portugueses (63% da amostra não gosta dos parlamentares).

Daí se compreende a insatisfação com a democracia, sobretudo entre os mais novos e a generalizada abstenção e alheamento em sucessivos actos eleitorais. Um terreno que tem de ser trabalhado para que o populismo e os movimentos extremistas não venham a ocupar o espaço político deixado vazio pela apatia, pela desconfiança, pela indiferença, pela demagogia e por valores que são estranhos à identidade dos portugueses.
Nesse retrato nacional, fica também à mostra a notável ascensão das mulheres ao mundo do trabalho mas ainda com pouco poder. Por exemplo, nas áreas da saúde (medicina e enfermagem), que tiveram um crescimento brutal do género feminino, as mulheres dominam em todas as profissões mas persistem desigualdades na progressão e nas chefias. As lideranças continuam a ser maioritariamente masculinas. 76% é a taxa de feminização global no Serviço Nacional de Saúde, enquanto na Administração Pública essa percentagem baixa para os 60%.

Como é também reconhecido, e depois dos anos de chumbo da troika, tem havido aumento da natalidade (1,37 em média) mas insuficiente para travar o envelhecimento generalizado, por isso estamos longe de garantir a reposição das gerações.
A nível de comportamentos, sabe-se que os jovens casam cada vez mais tarde, 58% das mulheres dão à luz o primeiro filho com idades compreendidas entre os 30 e os 40 anos, e uma em cada cinco crianças nascidas no país tem pais que nem são casados nem coabitam. 11% das crianças que nascem em Portugal são filhas de mães estrangeiras.

Apesar de todos os discursos, protocolos e plataformas, o despovoamento do interior continua em marcha, já que quase todo o país drena gente para o litoral. A coesão territorial e social é mero palavreado. Há aldeias com mais portas fechadas do que habitantes, porque a maioria destes abandonou a terra, rumo às grandes cidades ou ao estrangeiro, para construir uma vida mais digna. Fixar pessoas no interior não será tarefa fácil, mas é o grande desafio para os próximos governos.
Apesar de tudo, somos um país com elevada auto-estima. Temos os melhores futebolistas, os melhores treinadores, os melhores cientistas, os melhores artistas, os melhores criadores.
Em contraponto, temos dos piores políticos, dos piores banqueiros e dos mais corruptos agentes por onde o capitalismo se passeia.
Somos um país de antagonismos, que nos atravessam individual e colectivamente!

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