Correio do Minho

Braga, terça-feira

Braga Romana: o casamento e o divórcio romanos

Tancos: falta saber quase tudo

Escreve quem sabe

2018-05-30 às 06h00

Hilário de Sousa

Braga reviveu entre os dias 23 e 27 de maio de 2018 a XV edição de Braga Romana Reviver Bracara Augusta. A cidade voltou a vestir-se para recriar o quotidiano de Bracara Augusta, um evento que faz parte da estratégia de divulgação do conhecimento sobre o património milenar, segundo fonte da autarquia, colocando à disposição dos milhares de visitantes quadros vivos propiciadores da reflexão sobre esse passado marcante para aquela que é hoje a nossa identidade.
Esta dimensão de conhecimento e interesse associado é imprescindível para uma interpretação informada e uma aprendizagem significativa. A acompanhar esta proposição, que conduz a um saber consolidado porque experienciado, importa garantir a validade científico-pedagógica da Braga Romana, certificando desde logo as suas atividades-chave, de modo a que não se desvirtue sob nenhum pretexto a fiabilidade e rigor de um acontecimento que deve ser autêntico.

Inclui-se nesse diálogo com as origens da cidade o património romano existente, designadamente o núcleo museológico das Termas Romanas, Teatro, Fonte do Ídolo, Domus da Sé e Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa. Estes espaços físicos contextualizaram uma parte da recriação histórica a que se assistiu, merecendo especial destaque temáticas como a economia, religião, cultura, gastronomia, artes, ócio, estética, desporto, saúde e política.
Um dos momentos altos dessa revisitação foi o Romanae Nuptiae ou Casamento Romano. O tipo de casamento a que assistiram centenas de pessoas no passado domingo foi a confarreatio casamento patrício de recuadíssima tradição. A solenidade consistia essencialmente na apresentação da jovem noiva aos deuses da sua nova família, acompanhada de um minucioso ritual. Esta modalidade tradicional de casamento foi no entanto mandada abolir por Augusto durante o Império, criando uma outra que influenciou os tempos futuros e deixou muito vestígios: as nuptiae, precedidas dos sponsalia.

Os sponsalia são o noivado, anunciam o casamento, estabelecem um compromisso entre os noivos, com a oferta de um anel pelo noivo à noiva, na presença de testemunhas. As nuptiae, das quais deriva o casamento cristão, com noivado e consentimento mútuo dos noivos, comportavam uma celebração moderna religiosa em casa da noiva ou num templo, a troca de um sim, sob a fórmula ritual pronunciada pela mulher: Ubi tu Gaius, ego Gaia.
O curioso é que o casamento, especificamente nas classes dominantes, era equivalente a um acordo político, não significava uma aliança afetiva, daí que muitos dos homens e mulheres influentes de Roma tivessem várias uniões. Sylla, Pompeu e António, por exemplo, esposaram cada um cinco mulheres; os imperadores Calígula e Cláudio casaram-se cada um quatro vezes. Entre as mulheres, o destaque pertence a Vistilia, mãe de Corbulão, general da época de Nero, que teve sete filhos de sete maridos num período de vinte anos (http://historiainte.blogspot.pt/2014/02/a-familia-romana.html).

Algumas dessas uniões firmadas numa determinada contingência política provocaram situações escabrosas. Pompeu esposou em terceiro matrimónio a nora de Sylla, Aemilia, que estava grávida de seu primeiro marido, Acilius Glabrio. Mas isso não impediu que ela se instalasse na casa do seu novo marido. Pouco depois, morreu ao dar à luz um menino, que foi logo transferido para a casa de seu pai natural. Augusto, cuja mulher Escribónia estava grávida, apaixonou-se loucamente por Lívia, que também estava grávida, e era casada com Nero. Augusto esperou que Escribónia desse à luz sua filha Júlia para repudiá-la no próprio dia de seu parto. Em seguida, casou-se com Lívia que deu à luz em sua casa (http://historiainte.blogspot.pt/2014/02/a-familia-romana.html).

O divórcio era assim uma prática tão banal na alta sociedade romana que Séneca estigmatizou as suas concidadãs: Elas casam-se para se divorciar e divorciam-se para casar. Messalina aproveitou a ausência do marido, o imperador Cláudio, para se declarar divorciada e celebrar o seu casamento com o amante Silius. Aliás, a mulher podia pedir o divórcio sem ter de se justificar.
O cristianismo modificou a conceção romana de família e rompeu com as práticas matrimoniais do mundo pagão. Apoiando-se em textos dos Evangelhos (Que o homem não separe o que Deus uniu) e das epístolas de S. Paulo (Que a mulher não se separe de seu marido... e que o homem não repudie sua mulher), os Pais da Igreja declararam a obrigação da monogamia e a indissolubilidade do casamento. Durante o primeiro milénio, o casamento permaneceu um assunto no qual a Igreja não intervinha. Foi somente em 1215, quando do Concílio de Latrão IV, que o casamento se tornou o sétimo sacramento da Igreja Católica e se transformou num ato público efetuado numa igreja diante de um religioso.

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