Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Bom Natal e Boas Leituras

Eu, Fausto.

Voz às Escolas

2010-12-16 às 06h00

Vasco Grilo Vasco Grilo

Hoje quero falar de leitura e de livros, duas coisas para mim ainda intimamente ligadas.
A leitura faz bem ao espírito e à inteligência. É alimento para a alma e catalisador para a inteligência. Dirão uns que isso é verdadeiro para as “boas” leituras. Talvez assim seja mas ler é em si um bem. Daí que a leitura seja uma área estruturante de todo o conhecimento.
O livro continua a ser o melhor objecto para ler. Se é bom então não há outro objecto que se lhe compare para aceder ao conhecimento e à beleza das ideias. A palavra escrita fixa um pensamento e torna-o, se sublime, em algo para sempre.

Hoje quero deixar dois excertos de dois excelentes romances, o primeiro, de Herta Müler, poético, de enorme beleza e fragilidade, que nos narra um quotidiano de fome, tendo por pano de fundo as vivências de um jovem da minoria alemã da Transilvânia, num campo de trabalho russo, no fim da segunda guerra mundial do século passado; o segundo, publicado em primeira edição em 1890, por Knut Hamsun, é considerado um marco da literatura moderna, descrevendo os delírios solitários de um jovem escritor que percorre o seu sonho de escrita lutando contra o mais temível dos inimigos: a fome. Escreve para conseguir comer. Não comendo como conseguirá escrever? Toda a acção se desenvolve em torno deste cruel dilema.

Do primeiro, associo o livro à expressão “o pão da fome”, o pão que engana, que não alimenta, que é sempre perda. De manhã, cortado, parece sempre igual. À tarde, à medida que vai secando, ganha uma forma própria, que é diferente de ração para ração. Daí que o pão dos outros pareça maior. Daí as trocas, sempre com a sensação de que afinal se fica sempre a perder. O pão da fome só dá para enganar a fome, cuidando cada um de se enganar querendo enganar o outro. E todos sentem o mesmo.

Do segundo, percebe-se que o herói não precisava de passar fome. Fá-lo porque quer, porque decidiu sofrer, em busca do seu sonho mais profundo: escrever. Procura, nas palavras de Paul Auster, “uma arte da fome, uma arte da necessidade, da precisão, do desejo. (…) Uma arte que começa com o reconhecimento de que não há respostas certas.”

Dois livros. Duas visões do humano. Uma temática. E como são diferentes e ricos. Essa é talvez a principal riqueza da leitura: abrir-nos ao sublime.
Terei conseguido abrir o apetite para a leitura?
Um Bom Natal e boas leituras.

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