Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Bispo, mas pouco

A sociedade e os comportamentos

Ideias

2012-09-07 às 06h00

Borges de Pinho Borges de Pinho

O caso remonta a meados de Julho mas merece ser comentado. Até porque, ao contrário do que pensa o “Prof. Pardal”, a atitude não revelou apenas falta de estilo já que foi antes um arroubo de insensatez, de uma mal disfarçada vaidade e de um bacoco pretensiosismo, para além de deixar perceber esconso partidarismo, falta de isenção e uma incontrolada ânsia de projecção. Mas a grande verdade é que nem todos têm o arcaboiço, inteligência e idoneidade de um Abel Varzim ou de um Ferreira Gomes.

Aliás a intervenção, muito redutora e de efeitos perversos, perfilou-se como algo de gratuito e de impensado dada a forma imatura, aligeirada e oca como se processou, até porque não se tratava de uma conversa numa tertúlia de amigos e após um animado jantar nem sequer uma anódina troca de palavras na caserna ou desabafo na messe dos oficiais entre o rolar de um copo de wisky e mais um jogo de bridge.

Na verdade configurou-se como algo de muito grave porque bolçada por alguém que tem de ser sério, responsável e sensato, e a quem não se admite nem fica bem um qualquer arroto de insensatez e de parlapatice, mesmo que não cause espanto a quem o conhece desde o Colégio da Formiga e o acompanhou ao longo de 10 anos até à Sé numa comunhão de vida e ideais e no crescer de uma personalidade.

Mas, como sempre, não é de o levar muito a sério até porque a idade parece tê-lo descompensado e já aniquilado aquele mínimo de bom senso que é exigível a quem ocupe uma certa posição pública, social e de Igreja, obrigando-o a medir as palavras e a não atirar para o ar acusações sem factos concretos nem nomes, inebriado pelos holofotes da televisão e inquinado por uma vaidadezinha muito perversa.

Aliás o “menino” da Casa Januário teve sempre particular acolhimento dos professores das casas por onde passou, e também dos colegas, é um facto, para quem o “portista” ferrenho, algo parlapatão e um pouco imaturo era o “compincha” ideal nos dias de visita, até para um compartilhar de alguns comes e guloseimas.

Claro que, temos de o confessar, apesar de toda uma eventual e natural evolução cultural e intelectual foi com manifesta surpresa que o vimos ascender ao espiscopado, e depois ser adstrito às Forças Armadas, pois nunca lhe divisámos sinais de invulgar intelectualidade, profunda santidade, especial fervor evangélico e incomum espírito apostólico e pastoral, mas é um facto que ser major-general e bispo das FA fez-lhe crescer o peito, o prestígio e até a voz, muito embora fosse mais útil e benéfico para a igreja tê-lo numa qualquer diocese e em trabalho pastoral.

Ultimamente bolçando comentários políticos, já teve o desplante de igualar Passos Coelho a Salazar (que sabe e vivência tem disso o “menino” da Cada Januário?) mas em Julho excedeu-se na TV 24 com as afirmações, no mínimo gratuitas, eleiçoeiras, de teor comicieiro, partidaristas e não isentas, de “que o actual governo «é profundamente corrupto” e “não acreditar em alguns ministros que apelidou de «diabinhos negros»”, dizendo expressamente: “«eu não acredito nestes tipos, em alguns destes tipos, porque são equívocos, porque lutam pelos seus interesses, porque têm o seu gangue, porque têm o seu clube, porque pressionam a comunicação social, o que significa que os anteriores (do Governo de José Sócrates), que foram tão atacados, eram uns anjos ao pé destes diabinhos negros que acabam de aparecer»” (JN,18.7.12).

Com as expressões “os tipos” e “diabinhos negros” a “qualificar” e a marcar uma linguagem rasteira, nada episcopal e evangélica e não admissível sequer em qualquer “querubim”, deixou-se resvalar para um palavreado de infeliz despautério em que “embrulhou” aligeiradas e gratuitas insinuações e acusações e mostrou memória curta, falta de isenção, parlapatice, imaturidade e insensatez.

Ainda que se questionando a verdade e objectividade dos incontornáveis insultos e difamações, o certo é que fez imputações tão graves que o poder judicial deve proceder a uma averiguação cuidada e não redutora e coagi-lo a concretizar e a relatar as situações de corrupção, de ganguesterismo e de clubismo que insinuou.

Compreendendo-se a demarcação da CEP e a posição de Aguiar Branco ao sugerir-lhe a opção entre Bispo das Forças Armadas e comentador político, é sem qualquer rebuço ou reserva que comungamos das considerações de um Jorge Moreira da Silva ao entender que foi um «exercício gratuito de difamação» e que as palavras devem ser “ «relativizadas em função do autor», que não se “caracteriza nem pelo bom senso nem pela razoabilidade» (João Almeida) (id.).

No entanto, e apesar de tanta insensatez e truculência quase rasarem a parvoíce e a tontaria devido ao local, modo, estilo, posição e gravidade do que foi dito, a grande verdade é que de modo nenhum o conseguimos levar a sério.

Sempre muito convencido, algo imaturo, parlapatão e com hiatos em sensatez, agora com o avançar da idade parece ter resvalado para o descontrolo verbal e alguma insanidade, deixando assomar aquele tique de vaidade que nunca conseguiu disfarçar.
Mas a Igreja, sabe-se, tem outras vozes e perfis muito mais responsáveis, credíveis e respeitados para uma melhor defesa dos pobres, desamparados, humildes, oprimidos e demais vítimas dos poderes político e governamental !...

PS. Impondo-se cortar nas despesas públicas, é altura de reduzir e encurtar as FA pondo-se termo a muitas fardas, postos e chefias inúteis. E a um bispo privativo!...

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