Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Bienais de arte na região

Sinais de pontuação

Ideias

2018-09-11 às 06h00

Jorge Cruz

“As coisas que passam ficam para sempre numa história exacta”
(Sophia de Mello Breyner Andresen)


Os retardatários que se interessam por Belas-Artes ainda dispõem de quase duas semanas para visitar a XX Bienal Internacional de Arte de Cerveira, certame inaugurado em 10 de Agosto e patente ao público até ao próximo dia 23 do corrente.
A visita à bienal de arte mais antiga do país vale sempre a pena mas este ano, quando se assinalam os seus 40 anos, há fartos e diversificados motivos a justificar a deslocação, com particular ênfase para a justíssima homenagem que o evento presta a um dos expoentes máximos do surrealismo português, o mestre Cruzeiro Seixas. São 120 peças em exposição, pertencentes a colecções públicas e privadas, naquilo que constitui uma retrospectiva marcante da sua obra plástica e poética que, além do mais, possibilita uma reflexão actual sobre o movimento artístico de que o autor é um dos maiores referenciais.
Mas obviamente, o tema desta bienal da vila das artes, como também passou a ser conhecida a simpática localidade alto-minhota, - “Artes Plásticas Tradicionais e Artes Digitais – O Discurso da (Des)ordem” – sugere, e mostra, um extenso rol de trabalhos multidisciplinares com um denominador comum, que é a sua grande qualidade.

A Bienal Internacional de Arte de Cerveira é um evento perfeitamente consolidado, nos planos nacional e internacional, uma referência, como o comprovam as mais de 600 obras de 400 artistas oriundos de mais de 30 países, que este ano podem ser apreciadas. Mas é de inteira justiça lembrar que isso se deve, em grande parte, à persistência de um conjunto de artistas plásticos que sonharam a obra (recordo o pintor Jaime Isidoro, alma-mater das primeiras bienais, ainda muito experimentais e improvisadas, bem como o escultor José Rodrigues, e posteriormente os pintores Henrique Silva e Augusto Canedo, entre outros), sem esquecer também, naturalmente, os apoios recebidos, entre os quais será de destacar o empenho e resiliência dos autarcas locais.

Também em Guimarães, ainda está a decorrer, até 20 de Outubro, a Bienal de Arte Têxtil Contemporânea - Contextile 2018, um evento criado quando a cidade foi Capital Europeia da Cultura e que, portanto, está na sua quarta edição.
Trata-se de uma iniciativa cultural de carácter internacional que se estende por diferentes espaços culturais e artísticos, designadamente aqueles que a CEC criou, e que contempla a exposição propriamente dita mas também residências artísticas, tertúlias com autores e um conjunto de actividades diversificadas com reputados artistas internacionais e que visam colocar o sector têxtil no contexto da criação artística contemporânea.
Entre os eventos de artes plásticas recentemente realizados, o destaque vai para outra vila que, tal como Cerveira, assume a promoção e divulgação das artes como um desígnio do município, na expectativa, aliás amplamente confirmada, de possibilitar às populações um acesso mais facilitado a este tipo de manifestações artísticas.

A Bienal Internacional de Arte Jovem de Vila Verde, este ano na sua décima edição, abrange múltiplos géneros como a pintura, a escultura ou a fotografia, e tem vindo a fazer um caminho seguro de crescimento, quer do ponto de vista quantitativo quer do ponto de vista qualitativo.
Isso mesmo é orgulhosamente reconhecido pelo município de Vila Verde o qual, tendo em consideração a “maturidade do evento” e o seu percurso ao longo das dez edições, já garantiu que a próxima Bienal, em 2020, decorrerá no futuro Centro Cultural de Vila Verde, estrutura que resultará da transformação, em curso, da antiga adega cooperativa.

Esta exemplar aposta na cultura é de saudar porque valoriza o esforço de um punhado de pessoas que, com alguma utopia, sonharam o evento, o colocaram no terreno e lhe deram continuidade. Agora com novas instalações será o momento de dar o salto, não apenas no plano exposicional mas principalmente através do aprofundamento do conceito que esteve na origem do evento.
De resto, pode dizer-se que a postura visionária assumida há 21 anos tem vindo a dar excelentes frutos, mercê do empenho de nomes prestigiados das artes plásticas, como é disso exemplo o actual coordenador artístico e presidente do júri, Luís Coquenão.

Finalmente, a I Bienal Internacional de Arte Sacra Contemporânea, evento que encerrou portas no Museu Pio XII, em Braga, no início deste mês, é a mais recente aposta na área das artes plásticas.
Trata-se, é certo, de um evento com características diferenciadas relativamente aos anteriores, com um universo assaz restrito em termos de participação, já que acolhe exclusivamente obras de arte sacra, mas esse factor distintivo não menoriza o evento, bem pelo contrário.

Como sublinhou o director do Museu Pio XII, unidade cultural da Arquidiocese de Braga que acolheu o evento, “sendo a primeira, tem a marca da novidade, tem o condão de chamar os artistas a esta esfera do religioso”, arte temática que, como é sabido, tem grande expoente na capital do Minho.
Saúda-se, naturalmente, a grande visão da associação Atlas Violeta, de Vila Nova de Gaia, ao apostar na organização desta primeira bienal na cidade dos arcebispos, bem assim como a Arquidiocese bracarense, parceira no evento. Este, poderá também ser o clique que desperte outras entidades com obrigações culturais, como é o caso do município, para uma iniciativa devidamente estruturada na área das belas-artes.

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